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  • hikafigueiredo

"Eu Me Importo", de J. Blakeson, 2020

Filme do dia (102/2020) - "Eu Me Importo", de J. Blakeson, 2020 - Marla Grayson (Rosamund Pike) é uma tutora legal destacada para cuidar de idosos interditados pela justiça dos EUA. Apesar de contar com prestígio junto ao juiz, Marla não possui nenhum caráter e usa de sua posição para se apossar dos bens de seus tutelados. No entanto, Marla encontra alguém que lhe faz frente ao assumir a tutela da idosa Jennifer Peterson (Diane Wiest), sem saber que ela tem ligação com um poderoso mafioso.





Ai. Que filme difícil de lidar para mim. Tenho de admitir que a obra despertou um certo senso de justiça em mim que me levou a me sentir angustiada ao longo do filme como há tempos não acontecia. Ao mesmo tempo, há uma dimensão na obra que fez com que eu tivesse sentimentos muito contraditórios pela personagem Marla. Eu me explico. Marla é odiosa, uma pessoa sem qualquer escrúpulo, sem empatia, sem compaixão, uma predadora. Por conta disto, é absolutamente impossível não detestá-la. Por outro lado, Marla é produto de uma sociedade em que só importa vencer, onde ter sucesso é imperativo e onde, via de regra, as mulheres são vistas como frágeis e incapazes de competir em pé de igualdade com os homens. O fato de Marla não abaixar a cabeça para nenhum homem, de ter consciência de que o que é visto como arrojo nos homens, nas mulheres é considerado defeito, de não aceitar ser vítima do machismo estrutural, fez com que eu tenha visto, em Marla, certos motivos para ela agir de forma tão ignóbil e até mesmo considerar que ela tem lá algumas virtudes. Assim, Marla é uma personagem extremamente controversa e que despertou em mim sensações por demais ambíguas e incertas, o que me deixou ainda mais incomodada. Então, se você for ver o filme, prepare-se para se sentir um bocado desconfortável com o que verá. A obra gira em torno do mau-caratismo de Marla em se apropriar dos bens de "seus" idosos, muitos dos quais em perfeitas condições mentais, já que, o esquema de Marla contava com a colaboração de médicos e responsáveis por asilos de idosos corruptos e mal intencionados. O esquema ardiloso corria às mil maravilhas até Marla deparar-se com uma tutelada com ligações com pessoas perigosas e poderosas - daí o caldo entorna. Não posso revelar mais para não incorrer em spoilers, mas aviso que a indignação será quase certa. A narrativa é linear, com ritmo intenso. Apesar de ter um forte componente dramático, acho que o filme está mais para um thriller do que para um drama. Não acredite em qualquer descrição que alegue que o filme tem um teor cômico - desculpe, mas não tem nada de engraçado em lugar algum ali. A atmosfera do filme me foi particularmente pesada e desconfortável. O roteiro é amarradíssimo - apesar de uma ou outra coisa pouco verossímil. A linguagem da obra é bastante convencional, mas não se encaixa em fórmulas como é costume no cinema norte-americano. No elenco, a maravilhosa Rosamund Pike que, pelo visto, está decidida a se especializar em personagens escrotas (com o perdão do termo, mas não tem nenhum outro tão adequado), simplesmente perfeita como Marla; Eiza González interpreta Fran, a companheira de Marla; Dianne Wiest interpreta a idosa Jennifer Peterson, personagem que eu adorei; e Peter Dinklage interpreta o personagem Roman, muito bem. O filme me arrebatou ao mesmo tempo em que me incomodou e só pelo tsunami de emoções, eu já acho que ele vale MUITO a pena. Vejam, eu recomendo.

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