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"Ida", de Paweł Pawlikowski, 2013

Filme do dia (159/2018) - "Ida", de Paweł Pawlikowski, 2013 - Polônia, 1962. A noviça Anna (Agata Trzebuchowska) está prestes a jurar seus votos e tornar-se, efetivamente, uma freira. Dias antes do evento, no entanto, sua superiora revela que ela possui uma tia e que deverá passar alguns dias em sua companhia antes de fazer seu juramento. Anna, então, parte para a casa de Wanda (Agata Kulesza), onde dolorosas verdades virão à tona.





Com extrema austeridade, a obra mostra um pouco dos fantasmas do pós-Guerra, retratando o que restou aos órfãos e aos sobreviventes da ocupação nazista, os quais tiveram suas vidas definitivamente alteradas pela guerra. No filme, há o conflito entre a jovem Anna - Ida, na realidade - que passou sua existência dentro dos muros de um convento, sob rígida disciplina católica, acreditando ser totalmente órfã e tendo como único horizonte a vida religiosa, e sua tia Wanda, uma magistrada desiludida, marcada pelo assassinato de todos os seus familiares, descrente e cheia de mágoas. Apesar de retratar muita dor e desencanto, a obra é essencialmente discreta, comedida, sem qualquer arroubo de emoções. Enquanto a jovem mantém sua impassibilidade moldada na disciplina do convento, Wanda perde-se em excessos físicos - álcool, cigarro e sexo - que jamais chegam, no entanto, na expressão de suas emoções. O clima é de desalento e o ritmo é pausado, bastante vagaroso. O filme conta com uma belíssima fotografia P&B, luminosa por conta do branco da neve que acompanha boa parte das imagens. Os enquadramentos são "curiosos": muitos são os quadros onde o que é retratado está deslocado do centro ou, ainda, sofre um recorte incomum, de forma a causar certo estranhamento no espectador. A obra é, ainda, muitíssimo silenciosa - não há qualquer música incidental e as poucas músicas que aparecem estão tocando no ambiente onde a narrativa se passa; mesmo os diálogos são econômicos e limitam-se ao necessário, nunca saindo do volume médio de uma conversa. A personagem Anna/Ida mostra-se muito contida e observadora, e a atriz Agata Trzebuchowska consegue captar muito bem toda a discrição e comedimento da personagem. Já Wanda traz a reboque muito mais dores e história, e Agata Kulesza consegue transmitir a tensão interna da personagem através de sua linguagem corporal. O filme foi agraciado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015 (ganhando dos ótimos "Relatos Selvagens" e "Leviatã"). O filme é bastante bom, mas, por sua contenção, pode não agradar a todos. Certifique-se de estar no espírito para ver uma obra lenta e intimista, ou a experiência não será tão agradável.

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