• hikafigueiredo

"O Barba Ruiva", de Akira Kurosawa, 1965

Filme do dia (81/2018) - "O Barba Ruiva", de Akira Kurosawa, 1965 - Japão, século XIX. O médico recém-formado Yasumoto (Yuzo Kayama) é destacado para atuar junto a uma clínica popular, atendendo principalmente a população miserável da cidade. Desgostoso com a tarefa, já que intentava ser "um médico de Shogun", Yasumoto passa a trabalhar sob a orientação do Dr. Niide (Toshiro Mifune), conhecido por "Barba Ruiva" e por sua postura humanista.





Nesta belíssima obra do mestre Kurosawa, temos um rico exercício de altruísmo e empatia. Ao longo da narrativa, o personagem Yasumoto - médico jovem, arrogante e egoísta - é confrontado pela postura humilde e compreensiva de seu orientador Niide, o qual arranca seu discípulo de sua zona de conforto, lançando-o diretamente na realidade crua e sofrida dos desvalidos. O jovem, inicialmente enojado dos seus pacientes miseráveis e rebelde quanto às regras espartanas impostas por Niide na clínica, surpreende-se com a forma como seu mestre acolhe os doentes e, paulatinamente, modifica sua forma de pensar e agir. A obra mostra a bonita transformação do soberbo Yasumoto em um verdadeiro médico, empático e preocupado com o próximo. Cá entre nós, o filme deveria ser obrigatório em todas as faculdades de medicina do país... À parte do conteúdo verdadeiramente enriquecedor, a estrutura do filme me causou estranheza. A narrativa me pareceu cindida em duas partes: na primeira, temos a chegada de Yasumoto na clínica, seu contato com vários pacientes pobres, a descoberta das tristes histórias daqueles doentes e o primeiro contato com a menina Otoyo; na segunda, toda a atenção se volta para a personagem Otoyo e sua relação com Yasumoto, sendo, os demais pacientes, esquecidos na narrativa. Essa súbita mudança de foco ocorrida quando da aparição da personagem Otoyo me incomodou, achei que quebrou demais a narrativa - mas quem sou eu para questionar o grande mestre Kurosawa???? (rs). Apesar desta quebra brusca, curti o desenvolvimento das duas "partes" da história - aliás, até gostei mais da segunda, focada na menina. Outra coisa que eu não gostei no filme foi a trilha sonora que deixou de lado os instrumentos tradicionais japoneses e assumiu uma sonoridade muito "ocidental" (fechando os olhos e escutando, tive a nítida sensação de estar vendo um filme hollywoodiano da década de 50 - descurti total). Por outro lado, a fotografia P&B e a direção de arte não decepcionaram, mantendo a qualidade e a beleza habituais das obras do mestre. Quanto às interpretações, dispensável elogiar o maravilhoso Toshiro Mifune, definitivamente o maior ator que o cinema japonês conheceu, sempre muitíssimo bem aproveitado por Kurosawa (e ainda por cima, lindo!!!!). Yuzo Kayama também teve uma bela atuação como Yasumoto. Mas, para mim, o grande destaque ficou com a atriz Terumi Niki, que interpretou a pré-adolescente Otoyo - num papel complicado, a atriz conseguiu imprimir uma expressividade, um olhar, uma linguagem corporal, que simplesmente me arrebatou, não consegui mais tirar os olhos da personagem!!! O filme é muito belo e tocante, talvez um pouco longo (mais de três horas de duração), mas nada que impeça uma boa "degustação" da obra. Como todo e qualquer filme do Kurosawa, vale (muito) a pena (principalmente para estudantes de medicina, para descerem um pouco de seu "Olimpo" ...). Recomendadíssimo.

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