“O Golpe”, de Julien Gaspar-Oliveri, 2026
Filme do dia (16/2026) – “O Golpe”, de Julien Gaspar-Oliveri, 2026 – Enzo (Diego Murgia) e Carla (Romane Fringeli) são dois irmãos que vivem sós há anos. Subitamente, o pai dos irmãos, Anthony (Bastien Bouillon), reaparece. Enquanto Enzo tenta acolher seu pai, com vistas a uma reconstrução familiar, Carla, ao contrário, o repele com veemência. Lentamente, antigos traumas relacionais vão surgindo, abalando as frágeis estruturas da família.

Explorando os interstícios da vida familiar dos protagonistas, o filme francês retrata, com uma certa frieza, a fragilidade daquelas relações fraternas, pautadas em segredos e traumas passados. Desde os primeiros minutos de filme, percebemos que os protagonistas vivenciam um relacionamento contraditório, onde amor e ódio estão, intrinsicamente, presentes. Com a chegada do pai, o que já se revelava frágil, começa, paulatinamente, a esfacelar-se, revelando feridas não cicatrizadas e dores ancestrais não esquecidas. Ainda que o desmoronar emocional de Enzo seja apresentado de uma forma bastante cuidadosa, com um escalonamento convincente, confesso que os dramas vivenciados pelos irmãos na companhia do pai não me surpreenderam – a natureza dos traumas impostos a Enzo e Carla fica muito evidente desde muito cedo. O cerne do filme é, justamente, representar as consequências de tais traumas nos diferentes personagens – enquanto Carla mostra-se endurecida e revoltada, Enzo demonstra carência, fragilidade e uma desesperada busca por afeto e acolhimento. Tentando moldar um arremedo de família com um material apodrecido nas entranhas, Enzo frustra-se e sofre pela ausência absoluta de estruturas minimamente sólidas em sua fantasiosa construção. Diante da ausência de uma figura materna protetora, a presença fantasmagórica de um pai nefasto e a resistência de uma irmã nada disposta a fazer parte da ilusão do irmão, Enzo desfaz-se emocionalmente, com resultados estarrecedores. A atmosfera angustiante e sombria perpassa toda a obra, trazendo um tanto de desconforto ao espectador. Destaco, ainda, a câmera curiosa e insistente que, por vezes, assume um tom jornalístico ao aproximar-se rapidamente do objeto, quase sempre algum dos personagens, e o uso frequente de planos fechados, levando o espectador para dentro daquela situação. Quanto ao elenco, gostei do trabalho de Diego Murgia como o sofrido Enzo – seus sorrisos constantes, aliados a um olhar clemente, revelam muito mais sua dor interna do que qualquer alegria real; Romane Fringeli também está muito bem como Carla, a irmã indignada que rechaça pai e a tentativa vã do irmão em protagonizar uma família de propaganda de margarina; por fim, Bastien Bouillon interpreta o pai Anthony, sem muito brilho, mas que também não chega a estragar o desenrolar da trama. Eu diria que o filme tem bons momentos, mas não deixa de ser um drama francês mediano como tantos por aí. Primeiro filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.



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