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“Minha Melhor Amiga”, de Susana Garcia, 2026

hikafigueiredo
há 1 dia
3 min de leitura

Filme do dia (15/2026) – “Minha Melhor Amiga”, de Susana Garcia, 2026 – Júlia (Mônica Martelli) e Clara (Ingrid Guimarães) são duas amigas na casa dos cinquenta anos que resolvem fazer uma surpresa para as filhas adolescentes que estão fazendo intercâmbio em Portugal, partindo, ambas, para uma viagem para a Europa. No velho continente, no entanto, as amigas serão confrontadas com diversas questões pessoais que mudarão suas vidas no Brasil.


 

Apesar de não ser o estilo de filme nacional que me agrada e encanta, acabei indo ao cinema assistir a essa obra, cedendo aos apelos de uma grande amiga. O resultado é que me deparei com um filme que equilibra virtudes e equívocos, mas que me agradou mais do que desagradou. Começando pelas qualidades, esta é uma obra que dá voz às mulheres maduras, o que, vamos combinar, não é assim tão comum. Eu, como cinquentona, rapidamente me identifiquei com aquelas personagens e me senti representada em várias questões femininas discutidas na história. Temas como climatério, vida sexual na maturidade, etarismo, maternidade, sororidade, dentre outros, são apresentados ao longo da narrativa, trazendo um pouco do universo feminino ao cinema. Gostei de ver, na tela, questões reais relacionadas às mulheres, sempre tão objetificadas e, muitas vezes, representadas como meros apêndices dos personagens masculinos das histórias. Aqui, temos uma mostra, ainda que modesta, da complexidade do universo feminino – digo modesta porque os assuntos são, em grande parte, pincelados. Até pela natureza da obra, assumidamente cômica, não se busca um aprofundamento dos temas tratados e nem um esgotamento das questões apresentadas que, diga-se de passagem, são muitas. Dos assuntos abordados, creio que alguns valem menções especiais. O etarismo relacionado às mulheres é um deles – permeia toda a história, mas não surge aqui com o peso negativo que, de fato, atinge nós, mulheres maduras. A obra abraça a ideia de que é possível confrontar o etarismo e continuar tendo uma vida plena, correndo atrás de sonhos e realizações. Sinceramente, acredito nas boas intenções da diretora, a qual certamente quis trazer um espaço de acolhimento às mulheres maduras, mas achei a “leveza” imprimida na questão um pouco fantasiosa. Outro assunto que vale a pena trazer à baila é a relação entre mulheres – achei delicioso ver um filme que mostra a amizade sólida, duradoura e profunda entre duas mulheres, retratando quanto nós podemos ser os portos seguros umas das outras. Foi ainda mais gostoso porque, na sessão de cinema, estava entre duas das minhas melhores amigas e, justamente, as amizades mais antigas que tenho!!!! Por fim, adorei ver um filme dirigido por uma mulher, protagonizado por quatro mulheres (as personagens Júlia e Clara e suas filhas) e tratando de assuntos tão caros para todas nós. Maaaaas, como nem tudo são flores, um ponto me incomodou – a questão, sempre tão presente, dos relacionamentos amorosos entre homes e mulheres. Porque, vamos pensar: inúmeros são os filmes cujos personagens são homens, que tratam de um sem-fim de assuntos e simplesmente não há menção de romance entre os personagens e alguma mulher!!! Mas, quando tem mulher na jogada, sempre, SEMPRE (!!!!), tem que ter relacionamento amoroso com algum homem na história! E aqui, por muitas vezes, o foco foi simplesmente o envolvimento das protagonistas com caras aleatórios, como se não pudéssemos tratar somente de outros assuntos que não incluíssem homens!!!! “Ah, mas o público feminino quer ver romance!” É... quer ver porque foi condicionado a isso, porque existe toda uma construção cultural apoiada no machismo estrutural que fez do foco feminino o amor romântico! Eu sei que descontruir esse interesse pelo amor romântico é algo complexo, que não caberia a um único filme essa tarefa e que, possivelmente, boa parte do público feminino realmente almeje ver esse assunto na tela, mas eu – EU!!! – adoraria ver uma obra sobre mulheres onde inexistisse esse tema!!!! Enfim... é o que tem para hoje rs. Formalmente, destaco a fotografia que aproveita locações incríveis, de beleza cênica incomum, bem como a trilha sonora gostosa repleta de hits nacionais e internacionais, que incluem artistas e bandas como David Bowie, Barão Vermelho, Legião Urbana, Tribalistas, dentre outros. Eu adoro as atrizes Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, mas confesso que me incomodei com o fluxo da interação entre as personagens – no fim de todas as cenas, quase sem exceção, elas terminavam falando frases de efeito e gargalhando, juntas. A repetição excessiva deste movimento não me agradou, por mais que acredite que a ideia era mostrar a sintonia entre as personagens. Também achei muito “fake” a quantidade de frases e palavras que elas falavam em uníssono – tirou completamente a naturalidade das cenas. Para fechar, é um filme ameno e despreocupado, que, embora trate de muitas questões sérias, finca o pé na leveza e no alto astral. Não espere profundidade, mas pode ver com uma boa porção de pipoca que não tem erro não. Atualmente nos cinemas.

 
 
 

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