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“Tipos de Gentileza”, de Yorgos Lanthimos, 2024

  • hikafigueiredo
  • há 1 minuto
  • 4 min de leitura

Filme do dia (12/2026) – “Tipos de Gentileza”, de Yorgos Lanthimos, 2024 – Três histórias se conectam tematicamente: um homem subserviente nega-se a fazer uma tarefa para seu chefe e passa a sofrer as consequências; um policial desconfia que a mulher que foi encontrada após um acidente não é realmente sua esposa; e a seguidora de uma estranha seita precisa encontrar uma mulher com características muito específicas.


 

Graças a um amigo, consegui assistir a essa obra, a qual se encontra em streaming pela Disney (plataforma que eu não assino). E foi com muitíssimo prazer que me deparei com um Yorgos Lanthimos “raiz”, daquele que retoma filmes como “Dente Canino” (2009), “O Lagosta” (2015) e “O Sacrifício do Cervo Sagrado” (2017). Pautada em circunstâncias bizarras, que adentram ao absurdo e causam um incômodo profundo, a obra costura três histórias independentes, mas que carregam um fundo temático comum e um único personagem que transita vagamente por todas elas. Na primeira história, encontramos um homem servil, que há dez anos obedece, nos mínimos detalhes, aquele a quem tomamos por seu amo, mas que, frente à sociedade, é meramente seu chefe. Ocorre que este “chefe” define cada segundo do dia de seu “funcionário” – até mesmo se ele vai se relacionar intimamente com sua esposa ou quantas páginas de livro ele irá ler. Ocorre que este homem subserviente se depara com uma tarefa a qual não se sente capaz de realizar – e diz o primeiro “não” ao seu senhor. A partir dessa negativa, tal home perceberá um verdadeiro desmonte em sua vida e terá de decidir que caminho tomará. Na segunda história, a esposa de um policial desaparece após um acidente de barco. Quando ela é encontrada e retorna ao lar, seu marido desconfia que aquela não é sua verdadeira esposa e passa a testá-la. Na terceira e última história, a seguidora de uma seita recebe a missão de encontrar “a escolhida”, uma mulher com atributos muito específicos e detentora de dons prodigiosos. Mas, o que há em comum nas três narrativas? Todas discorrem sobre pessoas que, deliberadamente, renunciaram à sua autonomia enquanto indivíduos, entregando-se, ilimitadamente, a terceiros, os quais passam a ter poderes absolutos sobre essas pessoas. Eu interpretei que o título do filme – “tipos de gentileza” – refere-se a esse despojamento da própria personalidade em detrimento do outro, essa entrega irrestrita, independente do que o outro possa fazer com esse poder – algo como se a renúncia fosse uma “gentileza” oferecida a terceiro. Aliás, a narrativa aponta para uma natureza extremamente sombria do ser humano – o poder absoluto, despido de qualquer consequência negativa para quem ordena, cria indivíduos verdadeiramente cruéis, insensíveis e monstruosos. As três histórias trazem elementos perturbadores, inclusive quando flertam com o humor ácido – sim, temos situações muito estranhas, muito pesadas, muito contundentes, mas, por vezes, com evidente aspecto cômico, daqueles que geram um riso nervoso, repleto de culpa (por rir de algo tão grotesco). A obra – como aquelas mencionadas anteriormente – é crua e impactante e o espectador precisa estar disposto a aceitar cenas e conjunturas muito desconfortáveis – eu confesso que AMO esse tipo de filme que me tira completamente do local de conforto e me joga num ambiente fascinantemente hostil. Não espere histórias convencionais e com final definido – tudo final aberto, aceite. Encontramos aqui, como em outras obras de Lanthimos, uma estética limpa, mas fria e privada de emoções – nos deparamos com espaços amplos, casas organizadas e bem decoradas, mas sem qualquer elemento que nos faça ver, ali, um lar, um aconchego; a música é, majoritariamente, atonal, estranha aos ouvidos e até mesmo irritante, como as estridentes notas de um piano que parece estar sendo marretado por dedos maldosos; as cores adotadas são igualmente frias e a fotografia é limpa, mas ligeiramente “chapada”, sem muitas nuances. As interpretações são propositalmente robóticas, há um distanciamento dos personagens das situações que enfrentam, como se eles não estivessem realmente ali. Quem assistiu qualquer filme anterior do diretor vai reconhecer essa “rigidez” na interpretação, na maneira de falar e agir dos personagens, magistralmente interpretados pelo elenco escolhido a dedo. Aliás, o mesmo grupo de intérpretes faz os diversos personagens das três histórias, assumindo, inclusive, papéis diametralmente opostos. Assim, temos no elenco o sempre excepcional Jesse Plemons (eu adoooooro esse ator!), a versátil Emma Stone (que se tornou a queridinha de Lanthimos desde que trabalhou com ele no “A Favorita” – 2018), Willem Dafoe (temos que concordar que o ator adora personagens controversos e complexos, tanto que fez uma parceria bem durável com o caótico diretor Lars Von Trier, participando de filmes como “Anticristo”,2009, e “Ninfomaníaca”, 2013), Margaret Qualley (ela participou de “A Substância”, 2024, nem preciso dizer mais nada... rs) e a ótima Hong Chau (de “A Baleia” e “O Menu”, ambos de 2022). O filme concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes (2024) e Jesse Plemons foi agraciado com o prêmio de Melhor Ator nesse mesmo festival. Ah, eu adoro tudo que o diretor faz, posso ser suspeitíssima, mas eu achei sensacional. Adorei e recomendo!!! Como já mencionei, está em streaming pela Disney.

 
 
 

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