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“Obediência”, de Craig Zobel, 2012

  • hikafigueiredo
  • 17 de fev.
  • 3 min de leitura

Filme do dia (09/2026) – “Obediência”, de Craig Zobel, 2012 – Em um dia particularmente complicado em uma unidade de uma franquia de fast-food, a gerente Sandra (Ann Dowd) recebe um telefonema: um homem que se apresenta como policial Daniels (Pat Healy) acusa a funcionária Becky (Dreama Walker) de ter cometido um crime. Sandra, seguindo as orientações do policial, passa a revistar e pressionar Becky, levando a circunstâncias estarrecedoras.


 

Ainda que baseado em histórias reais, o filme atinge um grau de absurdo tão grande que, confesso, é difícil de acreditar que alguém, em sã consciência, tenha chegado a tal ponto de imbecilidade. Tudo começa quando a gerente de um fast-food recebe um telefonema de uma pessoa que se diz policial e acusa uma de suas funcionárias de furto. O que se segue é uma escalada exponencial de condutas questionáveis e abusivas por parte da gerente e, posteriormente, de uma pessoa de “sua confiança”, que, em seu clímax alcançam, também, o patamar de serem ações criminosas. Eu espero, sinceramente, que o ápice de tais condutas tenha sido apenas uma licença (nada) poética do roteirista e diretor Craig Zobel, caso contrário, já passou da hora de recebermos um meteoro nas fuças. O filme discorre sobre duas questões principais: o exercício do poder e a obediência cega a figuras de autoridade. De um lado, há o prazer sádico e mórbido que algumas (muitas) pessoas apresentam de exercitarem poder sobre outras, seja através de simples orientações sem maiores consequências, seja através de imposição de regras ou ordens que, de alguma forma, humilhem ou imponham profundo sofrimento a terceiros. O que o filme mostra é – evidentemente – o limite do exercício do poder, em um grau inadmissível para uma sociedade supostamente organizada, racional e civilizada. Nesse aspecto, guardadas as devidas proporções, o filme dialoga com obras como “Saló, ou os 120 dia de Sodoma” (1975), “O Experimento de Aprisionamento de Stanford” (2015) ou o mais recente “Pisque Duas Vezes” (2024). O filme nem chega a aprofundar a questão de o que o ser humano é capaz quando lhe é dado poder, mas, certamente, o tema está ali. O filme discorre, ainda, sobre a subserviência das pessoas a figuras de autoridade. Ao longo da trama, vemos diversos personagens acatando as mais assustadoras ordens tão somente por virem de uma suposta “autoridade” – mesmo que sequer haja comprovação de sua eventual identidade. É impressionante que sequer a principal vítima dos abusos questione as ordens que lhe são infligidas!!! Segundo a narrativa, o ser humano é, com frequência, profundamente submisso a essas figuras de autoridades e qualquer mostra de questionamento é visto como desconformidade e rebeldia. Vi aqui, também, um recorte de gênero – no filme, mulheres mostram-se mais submissas que homens, muito embora aqueles que discordem também não se mobilizem para evitar condutas abusivas e frontalmente criminosas. Aliás, a falta de acolhimento e a incompreensão não atingem somente aqueles que estão diretamente envolvidos – diversos personagens simplesmente optam por não se envolverem, algo assustador. E quanto à sororidade, nem vamos entrar no mérito, simplesmente inexiste na trama. Nessa perspectiva de submissão irracional, o filme estabelece diálogo com filmes como os traumáticos “Nada de Mau Pode Acontecer” (2013) e “Speak No Evil” (2022 – o original, dinamarquês, não aquele pastiche mal ajambrado estadunidense). Um grande acerto do filme está na escalada de violência que, só no fim, extrapola o verossímil, mas, até certo ponto, é perfeitamente factível. Outro grande acerto é a atmosfera opressiva e claustrofóbica da obra que auxiliam a criar o profundo sentimento de injustiça – prepare-se para ser tomado pela mais genuína indignação possível. Destaque absoluto para a atriz Ann Dowd como a gerente Sandra – eu não sei se fiquei com mais ódio ou mais pena da personagem por ser tão obtusa, mas é certo que o trabalho de interpretação de Ann Dowd está estupendo. A atriz foi indicada para Melhor Atriz Coadjuvante no Critics’ Choice Awards (2013) e, o filme, a várias categorias no Festival de Locarno (2012). Prepare-se para passar muito ódio, mas ainda assim recomendo, não apenas por ser um filme ótimo, mas por trazer à luz algumas questões bem interessantes sobre obediência e posicionamento frente a discordância. Vejam! Está no streaming Prime Video.

 
 
 

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