“A Avaliação”, de Flor Fortuné, 2024
- hikafigueiredo
- 16 de fev.
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Filme do dia (07/2026) – “A Avaliação”, de Flor Fortuné, 2024 – Em um mundo distópico, onde os recursos naturais foram quase extintos e agora são controlados com mão de ferro por um governo totalitário, a geração de filhos deixa de ser um direito e passa a ser uma concessão do estado. O casal Mia (Elizabeth Olsen) e Aaryan (Himesh Patel) se candidatam para passar por uma rigorosa avaliação na tentativa de receberem a tão desejada autorização para conceberem um filho. Assim, durante sete dias, o casal passa a ser avaliado pela avaliadora estatal Virginia (Alicia Vikander), a qual tem poder absoluto de conceder ou denegar a autorização.

Misturando ficção científica com suspense, drama e até mesmo uma pitada de terror, o filme aposta na apresentação de um mundo distópico, no qual qualquer ação depende da autorização do estado. Ao longo da narrativa, compreendemos que o mundo como conhecemos entrou em colapso devido à escassez de recursos naturais. No intuito de salvar a humanidade – ou, mais precisamente, uma parte dela – o estado construiu uma cúpula gigante dentro da qual o ambiente é completamente controlado e estabelecido como ideal. Fora desta cúpula, o chamado Velho Mundo, o ambiente é hostil e aqueles que se aventuram a viver nele – muitas vezes por serem exilados – sobrevivem com dificuldade e com baixíssima expectativa de vida. Nessa nova realidade, o poder do estado é absoluto, os recursos naturais são controlados pelo governo e a reprodução é uma concessão raramente oferecida, uma vez que o envelhecimento da população foi contornado por uma expectativa de vida quase infinita. Neste panorama, acompanhamos Mia e Aayran, um casal que pleiteou a autorização para gerarem um filho. Para receberem tal autorização, eles precisam passar por uma rigorosa avaliação, com a duração de sete dias, aplicada pela avaliadora Virgínia. Ao longo de uma semana, Virginia aplica testes, provoca reações e observa o casal. Ocorre que os termos desta avaliação são vagos, nebulosos, e, os meios utilizados para avaliar o casal, nada convencionais e pouco éticos. Virginia alterna a figura de avaliadora com a persona de uma criança mimada, birrenta, fazendo com que o casal chegue a extremos, no intuito de avaliar sua aptidão à paternidade. A obra claramente é uma crítica à irresponsabilidade humana na condução do planeta e no uso indiscriminado dos recursos naturais, mas, também, ao risco que existe de a humanidade ser controlada por governo(s) totalitário(s) que retirem todos os direitos e passem a ditar leis que levem à absoluta desumanização. A narrativa – linear e em ritmo pausado – é hábil em criar um “mundo de pesadelo”, no qual os benefícios de viver em um meio ambiente ideal e sob uma longevidade infinita são solapados por uma vida árida, totalmente controlada por um estado autocrático, praticamente despido de expectativas ou esperanças. A atmosfera criada pela narrativa é opressora, não apenas pelo ambiente controlado e com algo de asséptico, mas, também – ou principalmente – pelos rumos tomados pela avaliação, que ganha cores cada vez mais absurdas. Os protagonistas são testados, provocados, humilhados além de qualquer limite moral e dificilmente o espectador não será tomado de desconforto e até raiva incontida pela situação e pela avaliadora Virginia. Aliás, o melhor do filme é justamente a construção da personagem da avaliadora – ela, que inicia como uma pessoa fria e inexorável, vai galgando degraus rumo à mais absoluta monstruosidade e perversidade. Prepare-se para sentir muito ódio de Virginia. Destaque para a ambientação estéril e esvaziada de qualquer detalhe que lembre um espaço humanizado. Destaque, ainda, para as interpretações fantásticas do trio principal – Himesh Patel está ótimo como Aaryan, um homem pacato, passivo e conformista; Elizabeth Olsen, por sua vez, interpreta Mia, uma mulher decidida, assertiva, que se agarra ao seu sonho de maternidade e disposta a qualquer coisa para atingir esse objetivo; mas é Alicia Vikander quem mais brilha no filme como a intragável Virginia – é incrível a alternância entre a persona da avaliadora e a da criança demoníaca e como a atriz consegue fazer essa passagem tão abruptamente. A crueldade explícita de Virginia, suas intenções maldosas e seu sorriso hipócrita e sádico, por sua vez, estão constantemente em cena, qualquer que seja a persona presente. O filme traça um diálogo interessante com outros sobre distopias, como “1984” (1984), “Brazil, O Filme” (1985), “Filhos da Esperança” (2006) e “O Expresso do Amanhã” (2013), mas, também, com outros que falam da maternidade, como “Tic Tac – A Maternidade do Mal” (2023). Eu, que adoro filmes sobre distopias, gostei da obra e recomendo. O filme está disponível no streaming Prime Video.



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