“A Única Saída”, de Park Chan-wook, 2025
- hikafigueiredo
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Filme do dia (13/2026) – “A Única Saída”, de Park Chan-wook, 2025 – Man-soo (Lee Byung-hun) é, há vinte e cinco anos, funcionário de uma indústria de papel, ocupando um cargo de gerência de produção. Ele leva uma vida confortável com sua família, assumindo alguns luxos proporcionados pelo seu bom salário e estabilidade. Quando a indústria em que trabalha é vendida para um conglomerado estadunidense, Man-soo e outros muitos funcionários são demitidos. Man-soo espera conseguir uma recolocação em pouco tempo, o que não se efetiva. Desempregado e desesperado, Man-soo passa a cogitar medidas drásticas para sua situação.

Baseado na obra bibliográfica “O Corte”, de Donald E. Westlake, a qual já havia ganhado uma versão cinematográfica pelas mãos do diretor Costa-Gavras (“O Corte”, 2005), o filme do excepcional diretor Park Chan-wook mistura drama, suspense e comédia ao apresentar o protagonista Man-soo e sua batalha atormentada por uma recolocação profissional em um mundo cada vez mais tomado por empresas “enxutas” e automatizadas. Partindo de uma evidente crítica ao modo de produção capitalista, onde a busca pelo lucro, concentração de renda e otimização de processos dão a tônica, a obra revela o “outro lado da moeda”, expondo como os trabalhadores são descartáveis e facilmente substituíveis e a insegurança profissional corrói a saúde física e mental dessa mão-de-obra operacional pouco ou mediamente especializada. Na história, após ser demitido e ficar meses em busca de recolocação, Man-soo se dá conta da existência de profissionais mais qualificados que ele e, portanto, mais aptos à contratação. Decidido a fazer qualquer coisa para conseguir um emprego na sua área e, assim, recuperar seu padrão de vida e os privilégios perdidos quando de sua demissão, Man-soo seleciona seus principais concorrentes e opta por tirá-los de seu caminho da maneira mais definitiva possível – eliminando-os sumariamente! O que segue é uma narrativa que, embora imbuída de drama e tensão, traz em seu bojo elementos que mesclam o humor ácido e o absurdo, sobretudo pela completa incompetência do protagonista para cumprir sua resolução: a natureza do personagem não é violenta e tampouco assassina, de forma que, para alcançar seus objetivos, Man-soo precisa travar mais do que uma luta contra seus opositores, mas, também, contra sua própria inabilidade para fazer o mal. Assim, ainda que o filme tenha um considerável potencial para a reflexão, ele também abre espaço para a diversão, pincipalmente nas cenas em que o desengonçado Man-soo enfrenta seus oponentes. A narrativa é linear em um ritmo crescente. Apesar de ter um conteúdo que envolve violência, a narrativa é despojada de cenas visualmente incômodas, quase tudo permanecendo no plano da nossa imaginação. Não espere, também, a natureza perturbadora que marcou a Trilogia da Vingança do diretor (“Mr. Vingança”, 2002; “Oldboy”, 2003; e “Lady Vingança”, 2005) - a atmosfera aqui é infinitamente mais leve, nem se compara à angústia que marcou a série de filmes mencionada. Destaque para a ótima interpretação do ator Lee Byung-hun, o qual consegue transmitir, ao mesmo tempo, a angústia e a determinação do protagonista. Destaque, ainda, para a desesperançosa cena final, um verdadeiro chute no estômago que levanta a questão: “o que será de todos nós?”. O filme começou badalado, mas não teve muito fôlego para os principais festivais e premiações da temporada 2025/2026. Eu gostei bastante, minha atenção foi completamente tomada pelo filme, mesmo assistindo em streaming e não no cinema como eu, inicialmente, intencionava. Acho que vale muito a visita, bem como vale procurar a primeira versão de Costa-Gavras (eu a assisti há muitos anos e confesso que não me lembro de quase nada, mas, como tenho o DVD, pretendo revê-lo em breve para fazer uma comparação). Atualmente em streaming no MUBI.



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