• hikafigueiredo

"São Paulo, Sociedade Anônima" - de Luiz Sérgio Person, 1965

Filme do dia (221/2016) - "São Paulo, Sociedade Anônima" - de Luiz Sérgio Person, 1965 - Carlos (Walmor Chagas) é funcionário da fábrica da Volkswagen, em São Paulo. O personagem leva sua vida pessoal de forma conturbada, ao mesmo tempo em que busca (e consegue) ascender na vida profissional. Após ser demitido da empresa, torna-se funcionário de uma fábrica de auto-peças e, paralelamente, tentar estabilizar-se no âmbito pessoal, casando com Luciana (Eva Wilma). Mas a vida na cidade não é fácil e Carlos sentirá isso.





Nessa obra-prima do cinema nacional, temos um rico panorama de uma época e de um lugar e os efeitos de ambos sobre os indivíduos, representados através dos personagens do filme e, mais especificamente, através de Carlos. O filme se passa no início da década de 60, época do desenvolvimentismo-nacionalista de Juscelino Kubitschek e "boom" da indústria automobilística brasileira, concentrada na cidade de São Paulo. A obra retrata aquele momento e expõe, de forma crítica, as mudanças ocasionadas na sociedade, os alicerces e os "porões" daquela nova realidade e, até mesmo, a origem de certas crenças que ainda resistem aos nossos dias (como a ideia de uma São Paulo locomotiva do Brasil). Através do personagem Arturo (Otelo Zeloni) há a crítica ao empresariado que surge do nada e "aduba" seu empreendimento com subsídios desviados, negociatas, corrupção de fiscais, exploração dos empregados, desrespeito às leis trabalhistas e, claro, muita propaganda. Já Carlos representa as classes em ascensão, que se jogam no trabalho, miram o sucesso profissional e material, sem ter um projeto sólido de vida, sem perspectivas além do trabalho pelo trabalho e dinheiro pelo dinheiro e logo são engolidos pela máquina de moer gente que é o capitalismo. Carlos movimenta-se errático pela vida, sempre insatisfeito, sempre desgostoso, despejando sobre o próximo - em especial as mulheres - todo seu descontentamento. O sucesso profissional só ajuda a corroer ainda mais o pouco de vida que Carlos possui, esvaziando de significado sua existência. O filme é riquíssimo em leituras e daria uma tese de mestrado, sendo impossível esgotar o assunto em poucas linhas. Mas ainda merece destaque uma leitura "feminista" da obra - chamou muito a minha atenção a forma com que o personagem tratava as mulheres e como eles eram representadas: Ana (Darlene Glória) como uma oportunista; Luciana como uma mulher excessivamente ambiciosa; e Hilda (Ana Esmeralda) como uma libertina, todas tratadas a pontapés por Carlos, que, ao longo do filme, as agride, insulta, despreza, diminui e abandona, num retrato mais que fiel do machismo arraigado daquela época (só daquela época????). Do ponto de vista técnico, ressalto a boa montagem, responsável pelo tempo não linear, com idas e vindas no tempo cronológico e, como destaque negativo, a qualidade de som que chega, em alguns momentos, a impedir completamente a compreensão dos diálogos (ruim demais da conta). Ótimas atuações de todos, com destaque para Walmor Chagas (mas também gostei muito de Darlene Glória). O roteiro e a direção de Luiz Sérgio Person são excelentes, irretocáveis. O filme é obrigatório para quem quiser conhecer direito o cinema nacional. Curti e recomendo.

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