• hikafigueiredo

"A Assassina", de Hou Hsiao-Hsien, 2015

Filme do dia (43/2018) - "A Assassina", de Hou Hsiao-Hsien, 2015 - China, século VIII. A jovem Yinniang (Shu Qi) foi treinada para ser uma matadora profissional. Ao falhar em uma missão devido à sua piedade, é enviada por sua mentora de volta à sua cidade natal com a incumbência de matar seu próprio primo para provar que consegue aplacar suas emoções e afetos.





Esse é daqueles filmes até complicados de escrever sobre. Antes de qualquer coisa, ele é uma obra muito boa, bem acima da média, eu diria. No entanto, traz em si características que o tornam difícil de ser visto, compreendido e apreciado. O tema - que recentemente comentei que não faz muito minha cabeça - gira em torno de intrigas políticas e familiares envolvendo o poder. O maior problema é que o roteiro é tãããão enxuto que durante boa parte da história eu me senti perdida no meio daquelas intrigas e ações. Temos aqui vários personagens fisicamente parecidos entre si e cujos nomes - logicamente, chineses - também não ajudam muito a situar o espectador ocidental. Os diálogos são quase minimalistas e a atmosfera geral - apesar das várias cenas de lutas de espadas e facas - é de austeridade e contemplação. Tudo na obra é detalhadamente pensado para evitar qualquer excesso, qualquer "rebarba", de forma a manter única e exclusivamente o essencial. No filme, importa mais o que não é dito, o que fica nas entrelinhas, nos profundos silêncios e nas expressões do que no que é falado. Nesse sentido, a direção de Hou Hsiao-Hsien é simplesmente impecável, tanto que lhe garantiu o prêmio de Melhor Direção em Cannes. Esteticamente, por sua vez, a obra é um colosso. Cada quadro é impressionantemente construído para apresentar harmonia, equilíbrio e beleza nada mais que perfeitos. A fotografia é, definitivamente, a mais linda que eu vi esse ano (e em muito tempo). A escolha dos cenários - províncias montanhosas do interior da China, imagens que pareciam de outro mundo - foi feita no sentido de aproveitar ao máximo sua beleza pictórica, o que é auxiliado pelo já comentado clima contemplativo. As lutas de espadas são lindamente coreografadas e exploram cada posicionamento de câmera com maestria. A direção de arte de época é perfeita e apresenta uma deslumbrante paleta de cores voltadas para o vermelho e o amarelo. Quanto ao elenco, Shu Qi surge como a enigmática e impassível Yinniang e atua bem a contento. O filme é excelente, mas não é para qualquer bico - essa coisa de ser minimalista e ascética ao extremo tornam a obra quase árida e isso pode desagradar o público (não vou mentir, eu tive sono em alguns momentos). Apesar dos poréns, é uma aula de cinema e merece ser visto.

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