“Papel Coadjuvante”, de Ana Urushadze, 2026
Filme do dia (36/2026) – “Papel Coadjuvante”, de Ana Urushadze, 2026 – Niaz (Dato Bakhtadze) é uma antiga estrela de cinema da Geórgia, afastado há quinze anos das telas. Ele é procurado por uma jovem diretora de cinema que lhe oferece uma pequena participação em seu filme de estreia. O personagem, diferente de tudo aquilo que já interpretara no passado, inicialmente o incomoda, mas acaba por despertar uma reflexão acerca de sua própria identidade.

Quase tão longo quanto pretensioso, o filme sugere uma reflexão acerca de arquétipo, identidade e comportamento, tendo como ponto de partida o personagem Niaz, um renomado ator de cinema na Geórgia. Niaz, que sempre interpretou personagens heroicos, modelares e perfeitos, acaba transportando, das telas para sua vida pessoal, a imagem de homem sem máculas, de comportamento ilibado, corajoso e viril, assumindo uma identidade que não era realmente a sua e se atribuindo um arquétipo de herói que não lhe pertencia. Um acontecimento da sua vida, no entanto, “quebrou” a imagem de perfeição, motivo pelo qual foi rechaçado por Niaz, levando-o a se afastar do trabalho como ator. Após anos recluso, ele é procurado por uma diretora de cinema que lhe oferece um papel secundário em seu filme. Inicialmente ofendido, pois o personagem oferecido, além de ser mero coadjuvante, era o oposto de tudo aquilo que ele havia representado antes - um sujeito desprezível, fisicamente asqueroso e moralmente torpe -, Niaz inicia uma jornada de autoconhecimento que o levará a questionar sua identidade e sua carreira profissional. Muito embora as temáticas da obra sejam muitíssimo interessantes, o desenvolvimento da narrativa se dá de maneira truncada, de início, e, ao final, torna-se desnecessariamente explícita, quase professoral. A síndrome de protagonista de Niaz é nítida e muito reforçada pela postura bajuladora dos fãs: ele é sempre o centro das atenções e admirado pelas virtudes de seus personagens, mais do que por suas verdadeiras qualidades. Ao longo da narrativa, essa figura de admiração e protagonismo começa a se esfacelar, culminando em uma revelação bombástica sobre o passado do ator. Em seu processo de autoconhecimento, Niaz precisa assumir e corrigir seu comportamento repreensível para, assim, poder vivenciar sua verdadeira identidade. Há, ainda, rapidamente, uma pequena discussão acerca do papel do ator e da arte da representação, muito fugaz, mas que está lá. A mudança brusca da narrativa, de confusa para didática, me incomodou – antes continuasse complicada, odeio que interpretem as coisas por mim como se eu não conseguisse fazer isso sozinha. A narrativa é composta por inúmeros pequenos arcos referentes às interações com diferentes pessoas que Niaz encontra no decorrer de sua jornada. A atmosfera é um pouco onírica, pois há certa fusão entre realidade e imaginação, entre passado e presente e entre o estado de vigília e o sonho, tudo remetendo a uma certa confusão mental do personagem diante de seus questionamentos. Gostei do desenho de produção que passeia por diversos ambientes sem que haja uma quebra e que nos faz – como ao personagem – perder a noção de tempo. O trabalho do ator Dato Bakhtadze me agradou, pois ele conseguiu imprimir tanto a confusão quanto a perplexidade do personagem ante alguns acontecimentos. Na minha humilde opinião, o filme tinha um potencial enorme que não foi muito bem aproveitado, principalmente pelo didatismo excessivo no terço final, totalmente dispensável. Duvido que chegue ao cinema comercial no Brasil ou aos streamings, mas, quem quiser procurar o torrent, faça-o por sua conta e risco. Vigésimo primeiro filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.



Comentários