top of page

“Mulher Desconhecida”, de May el-Toukhy, 2026

hikafigueiredo
há 2 horas
2 min de leitura

Filme do dia (34/2026) – “Mulher Desconhecida”, de May el-Toukhy, 2026 – Dinamarca, década de 1940, pós Segunda Guerra. A ex-babá Marie (Mathilde Arcel Fock), agora noiva de seu antigo patrão, está se acostumando com seu novo status de senhora de posses. O casal planeja um jantar para convidados ilustres e Marie prepara o evento, quando reencontra um antigo colega de escola que pode desvendar um inaceitável segredo dela.


 

Com uma fascinante ambientação da Dinamarca dos anos 40, o filme dinamarquês acompanha um fragmento da vida de Marie, a protagonista. A mulher, ex-babá de um importante e rico industrial, vê sua vida mudar radicalmente ao ser pedida em casamento pelo patrão. Alçada a uma nova situação socioeconômica, Marie carrega consigo um vergonhoso segredo. A obra retrata a Dinamarca após a Segunda Guerra, quando o país foi ocupado pela Alemanha Nazista. Liberta, a nação dinamarquesa passa a reconstruir o país, não sem antes perseguir e expor eventuais cidadãos colaboracionistas. Cidadãos, não... cidadãs. Homens que, de certa forma, auxiliaram os alemães – industriais e comerciantes que, porventura, negociaram com o exército ocupante – não eram expostos sob o argumento de que eles empregavam trabalhadores dinamarqueses. Já as mulheres que, por esses revezes do coração ou, talvez, por necessidade, mantivessem qualquer relação amorosa com integrantes do grupo inimigo, quando descobertas, eram perseguidas e humilhadas publicamente, tratadas como o mais absoluto dos lixos. Essa dicotomia no tratamento dos colaboracionistas homens ou mulheres demonstra a força do patriarcado na sociedade ocidental – aos homens reservam-se os direitos de escolha; às mulheres, as quais ousaram deitarem-se com homens do exército oposto, restam apenas a culpa e a humilhação pública. Essa questão é posta na obra de maneira bastante explícita, resultando em cenas de muita violência contra mulheres. O filme traz uma atmosfera de tensão, quase agonia, acompanhando os sentimentos da protagonista que teme ser descoberta. Apesar disto, o ritmo é lento, sem momentos de aceleração, até porque a personagem precisa fingir normalidade constante. A atriz que interpreta Marie, Mathilde Arcel Fock, imprime um olhar angustiado e toda a culpa que carrega – por mais de um motivo - à personagem, numa interpretação contida e sutil. O filme é ótimo, a história é poderosa, mas senti falta de alguma ousadia formal, ele é bem convencional em sua forma e linguagem. De qualquer modo, recomendo muito e acredito que qualquer público irá gostar. Décimo nono filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

Comentários


bottom of page