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“Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco, 2016

hikafigueiredo
há 2 horas
2 min de leitura

Filme do dia (32/2026) – “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco, 2016 – Daniel Nolasco (Guilherme Théo) nasceu e cresceu na cidade de Catalão, interior de Goiás. Integrante da comunidade LGBTQIAPN+, ele sai da cidade ainda jovem, para fazer faculdade no Rio de Janeiro. Dez anos depois, ao retornar ao local, percebe que nenhum de seus amigos continua em Catalão – ou se mudaram, ou faleceram.


 

A obra, que subverte completamente o formato documental, é uma mistura de ficção com documentário que retrata, mais do que um recorte da vida do diretor, o que é ser alguém LGBTQIAPN+ em uma cidade do interior do país. Se em grandes centros urbanos, essa população já sofre preconceito e, muitas vezes, é completamente marginalizada, imagine no interior, conservador e tacanho. O filme, dividido em capítulos, aborda questões do universo LGBTQIAPN+ através da apresentação de diferentes personagens, todos baseados em pessoas reais, incluindo o próprio diretor. Com MUITA criatividade, Nolasco retrata passagens da sua história e das vidas dos demais personagens, por vezes com um humor ácido e debochado, em outros momentos com delicadeza e muito respeito. Há uma divisão clara entre a primeira metade do filme e a segunda, divididos por um entreato: na metade inicial, somos tomados pelo humor fino e ironia, pela provocação, pelo deboche. Nessa parte, eu senti um claríssimo tom de vingança pessoal, pois o diretor expõe vários desafetos, dentre familiares, colegas de trabalho e meros moradores de Catalão. Ele não poupa adjetivos, muito embora nem sempre verbalizados, mas escancarados nas imagens. Destaque para o “personagem Jonas”, um homofóbico escroto da cidade de Catalão que eu espero se reconheça nas telas e passe vergonha por isso. Já a segunda parte, muito mais tocante, é uma sensível homenagem àqueles que não sobreviveram àquele local. O próprio diretor afirma que o filme não é sobre ele, mas sobre Catalão – mas que poderia ser qualquer outra pequena cidade do interior do país, com seus hábitos seculares e seu olhar limitado e preconceituoso. O filme é profundamente provocativo – inclusive, quem tiver muito pudores com cenas de nus masculinos e sexo, nem aconselho a ver, pois vai ficar constrangido desde a primeira cena -, ele é um verdadeiro tapa na cara da sociedade homofóbica e hipócrita. Mas, ao mesmo tempo, há muito carinho, respeito e afeto direcionado àqueles que mereciam, por sua trajetória, um maior acolhimento. Formalmente, a obra é profundamente lúdica e criativa, aproveitando diferentes subterfúgios para desenvolver sua narrativa, vide a cena do “supermercado”. Destaque para a trilha musical, cujas letras das músicas completam a mensagem a ser transmitida. O filme me abarcou por completo, eu sinceramente adorei tudo na obra. Recomendo para quem não tem preconceito nem é cheio de pudores. Décimo sétimo filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

 
 
 

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