“Aos Treze em Gaza”, de Hosam Abu Dan, 2026
Filme do dia (31/2026) – “Aos Treze em Gaza”, de Hosam Abu Dan, 2026 – Após perder sua mãe e irmãs em um bombardeio, Raghad (Mary Ziyara) sobrevive com o pai Abu Raghad (Firas Al-Masri) em um acampamento de refugiados lotado na Faixa de Gaza. Com treze anos, Raghad lida com as modificações de seu corpo e metabolismo sem ter qualquer orientação, enquanto seu pai luta pela sobrevivência deles trabalhando para Khalil (Ghassan Salem), um poderoso e perigoso comerciante do mercado negro local.

Inteiramente filmado na Faixa de Gaza – cujo estado de destruição choca qualquer pessoa que ainda não perdeu sua humanidade – o filme foca no que restou da família de Raghad, uma adolescente de 13 anos que acaba de menstruar pela primeira vez. Sem orientação e constrangida pela situação, ela precisa lidar com o acontecimento, o que faz sem falar com seu pai. Jovem e bonita, Raghad passa a chamar a atenção dos homens, que passam a cobiçá-la. Percebendo isso, seu pai busca protegê-la dos desejos masculinos. Com muita crueza, mas com sensibilidade, o filme expõe a condição feminina na sociedade patriarcal muçulmana, bem como a luta pela sobrevivência em um local embrutecido como a Faixa de Gaza. Como na sociedade ocidental – mas de uma forma diferente -, mulheres são coisificadas e negociadas como mercadoria. Para Raghad não há espaço para querer ou sonhar, ainda que seu pai tente preservá-la. Na Faixa de Gaza, como em qualquer lugar, homens são ensinados a desconsiderar as mulheres e seus anseios, vendo-as como meros pedaços de carne. Naquele lugar esquecido por Deus, onde a vida humana vale tão pouco, Abu Raghad tenta, desesperadamente, defender a filha, que ele entende ser jovem demais para sofrer aproximações masculinas. O filme retrata, ainda, com habilidade, a completa desumanização que aquela situação impõe àqueles que ali vivem – uma cena, em específico, é chocante: quando Abu Raghad é contratado por Khalil para transportar mercadorias pelo acampamento lotado de pessoas famintas e cuja consequência é assustadora. O desfecho é desalentador e, o silêncio da sala de cinema durante os créditos, uma prova viva de quão angustiante é a obra. Ainda que, pela própria situação, as condições de filmagem não fossem minimamente ideais, o resultado foi muito satisfatório – o filme é muito bem-produzido e, no aspecto formal, revela muita qualidade, ainda mais se considerando que foi filmado inteiramente em apenas doze dias e com uma equipe reduzida de somente cinco pessoas. Destaque merece a interpretação da jovem Mary Ziyara cujos enormes olhos apreensivos parecem engolir o mundo inteiro. É um filme muito bom, daqueles que tocam muito fundo na alma e que ficam na memória por dias. Recomendo muito, mas duvido que chegue aos cinemas ou a algum streaming, provavelmente terá de ser garimpado em torrent. Décimo sexto filme visto na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.



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