• hikafigueiredo

"A Bela do Palco", de Richard Eyre, 2004

Filme do dia (30/2022) - "A Bela do Palco", de Richard Eyre, 2004 - Inglaterra, século XVII. O teatro - em especial o shakespeariano - é uma arte estabelecida e sólida no reino. Os papeis femininos, por tradição, são encenados por homens, treinados deste a juventude para representar a delicadeza da mulher. O ator Ned Kynaston (Billy Crudup) sobressai dentre seus pares como o mais perfeito profissional a encenar tais papeis e conta com a admiração do público. No entanto, o rei Charles II (Rupert Everett), subitamente, decreta que os papeis femininos das peças deveriam ser encenados por mulheres, jogando no limbo a carreira de Kynaston. Humilhado, o ator só terá aos seu lado sua antiga camareira Marie (Claire Danes), agora alçada à atriz.





A obra, baseada em uma peça teatral inspirada na figura real de Edward Kynaston, um ator do século XVII especializado em papeis femininos e que viu seu ocaso quando do decreto do rei Charles II, retrata o momento de ruptura de uma tradição de séculos e a súbita mudança de paradigma quando a arte da interpretação foi estendida às mulheres, até então proibidas de atuarem. O foco se concentra no renomado ator Kynaston, que é obrigado não apenas a rever sua arte, mas a reencontrar seu papel na sociedade, há muito associado à feminilidade nos palcos que não mais poderia exercer. Seu contraponto é a personagem Marie, que fora sua camareira e o observara por anos a fio, aprendendo suas falas e gestual em cena, de forma a reproduzi-los fielmente. Tornada atriz justamente por conhecer os textos teatrais encenados por Kynaston, Marie culpa-se por ganhar fama enquanto o ator é afastado dos palcos e humilhado publicamente, ao mesmo tempo em que nutre sentimentos românticos por ele. A narrativa é linear, em ritmo moderado. Ainda que exista uma certa aura de angústia na narrativa - o espectador apieda-se pela situação do ator, muito embora demore para ele perder a empáfia de quem, um dia, foi considerado o melhor em seu ofício -, a atmosfera geral é leve, pois equilibra o sofrimento de Kynaston com a alegria de Marie por subir aos palcos e por um possível romance entre os personagens. É possível, ainda, perceber na obra, uma certa menção acerca de identidade de gênero, orientação sexual e, até mesmo, feminismo e sororidade, coisas que me soaram um pouco deslocadas no tempo, uma vez que todos são conceitos surgidos apenas no século XX - não que se discuta filosoficamente tais conceitos no filme, mas as ações dos personagens refletem uma consciência relacionada a tais questões que seria bem incabível naquele momento. A obra, por outro lado, tem méritos indiscutíveis quanto à forma - com uma bela fotografia em tons quentes, que, aqui ou ali, ousa planos e posições de câmera menos óbvios e uma direção de arte de época esmerada, que salta aos olhos, reproduz cuidadosamente um período da história e consegue expressar toda uma carga emocional aos eventos. Nesse sentido, o elenco tem uma forte participação no sucesso da produção - Billy Crudup está bastante convincente como o frustrado e confuso ator Ned Kynaston, que não sabe se odeia ou se encanta com a jovem Marie; Claire Danes está ótima como a arrependida e igualmente confusa Marie; Tom Wilkinson, sempre um ótimo ator, interpreta o ator e dono da companhia teatral Thomas Betterton; Rupert Everett, outro ator impecável, está impagável como o afetado rei Charles II; Zoë Tapper interpreta a aspirante a atriz Nell; o elenco é completado por Ben Chaplin, Hugh Bonneville e Richard Griffiths. A obra é um pouco irregular, eu diria - tem bons e maus momentos -, mas, o saldo é positivo, agradável de se ver. A "batalha" do casal nos palcos é o ponto alto da narrativa e o filme, para mim, já valeria por isso. Eu gosto do resultado e acho que vale a visita.

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