• hikafigueiredo

"A Bela e a Fera", de Jean Cocteau, 1946

Filme do dia (187/2020) - "A Bela e a Fera", de Jean Cocteau, 1946 - Um comerciante falido, pai de quatro filhos, dentre os quais a afável, generosa e humilde Bela (Josette Day), ao voltar de uma viagem, depara-se com um lindo castelo em meio à floresta. O homem entra no terreno do castelo e lhe subtrai uma flor, causando a ira da Fera (Jean Marais). Para não matar o comerciante, a fera exige que uma das filhas do homem vá morar com ele.




Primeira versão cinematográfica do conto francês homônimo, a obra criou boa parte do imaginário popular acerca do conto, começando pela aparência da Fera que, de homem-lobo do conto original, passou a ter aparência de um homem-felino. A obra discorre acerca da natureza humana e da solidão. Com relação à natureza humana, o filme retrata como a beleza exterior pouco ou nada relaciona-se com a verdadeira natureza das pessoas. Ainda que a Fera tenha uma aparência monstruosa, sua personalidade é gentil e generosa, não oferecendo qualquer perigo a Bela. Acerca do tema solidão, o filme mostra que tanto a Fera, quanto a Bela, eram pessoas solitárias e incompreendidas pelos seus pares, encontrando, um no outro, uma "alma gêmea". Questão: será que se a história mostrasse uma mulher monstruosa o final seria o mesmo??? Porque temos de lembrar que um dos maiores pilares do machismo encontra-se na coisificação da mulher, na padronização da dita "beleza feminina" e nas exigências sociais quanto à aparência da mulher. Eu duvido, sério. Voltando ao filme, o roteiro segue a narrativa do conto original, segue em tempo linear e tem um ritmo suave. A obra é conhecida por sua estética - bela, com um quê de onírica, com uma verdadeira atmosfera mágica, combinando muito bem com o conteúdo fantasioso da história. O castelo da Fera é, a um mesmo tempo, atraente e sombrio, com suas muitas figuras humanas que se mexem dada a natureza mágica do lugar. A fotografia P&B é prioritariamente marcada, muito contrastada, com muitos "cantos escuros", principalmente no interior do castelo da Fera. A grande exceção fica por conta dos planos fechados no rosto de Bela - aí temos a fotografia padrão das "estrelas" da época, com luz suave, bem difusa, criando uma tez aveludada na atriz. Não sei se é porque adoro felinos (rs), mas não achei a aparência da Fera assim tão medonha - poxa, ele parece um grande gato ! Rsrsrs Achei a maquiagem da Fera bastante bem feita, principalmente se lembrarmos que, na época, não havia muitas opções de efeitos especiais. Falando em efeitos especiais, a obra arranja algumas soluções bem interessantes para contornar certas "mágicas" da narrativa, como, por exemplo, na cena em que Bela usa uma luva mágica, desaparece do castelo e surge, magicamente, em sua antiga casa (nem sei explicar a imagem, mas me agradou bastante). Josette Day está muito bem como Bela - ela tem uma certa aparência angelical que combinou muito com a personagem e sua interpretação esteve dentro dos padrões da época; Jean Marais, na minha opinião, esteve melhor como Fera do que como homem, mas não chega a incomodar como gente. Destaques: a cena em que o pai de Bela entra no castelo; a cena em que Bela entra no castelo pela primeira vez; a tal cena em que Bela é transportada para sua casa. Sou suspeita para falar, porque adoro essa história, mas achei o filme fabuloso, muito sensível e extremamente estético. Acho difícil alguém não gostar. Recomendo.

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