“A Casa”, de Gustavo Hernández, 2010
- hikafigueiredo
- 27 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Filme do dia (48/2025) – “A Casa”, de Gustavo Hernández, 2010 – Numa área rural do Uruguai, Wilson (Gustavo Alonso) e sua filha Laura (Florencia Colucci) chegam à casa de campo de Néstor (Abel Tripaldi). A casa será vendida, mas antes, Wilson e Laura precisam fazer a manutenção do jardim. Eles se preparam para passar a noite no local, para começarem os trabalhos bem cedo no dia seguinte, mas sons estranhos no andar de cima da casa vão trazer uma mudança de planos.

Apresentado como baseado em fatos – mas, ao que tudo indica, inspirado numa lenda urbana -, o filme experimental uruguaio, de apenas 86 minutos de duração e de custo de produção em torno de meros 6 mil dólares, fez sucesso quando apresentado em Cannes. A obra traz um único plano-sequência e, supostamente, mostraria o “medo real em tempo real”. Digo supostamente porque o plano-sequência sugere um olhar imparcial dos acontecimentos, quando, na verdade, isso é subvertido com a inclusão e fusão de diferentes “pontos de vista”, inclusive a percepção psicológica da personagem Laura. Tudo começa com pai e filha chegando a uma casa de campo afastada onde eles passarão a noite. Durante esse tempo, Laura escuta sons no andar de cima e pede para seu pai verificar. O que segue são minutos eternos de tensão, em que Laura tenta entender o que exatamente está acontecendo e que conduz o espectador a uma verdadeira viagem ao inferno. O filme traz o melhor estilo de terror psicológico – a inclusão de elementos sobrenaturais não é decisiva, pois existe a hipótese de ser a percepção alterada da jovem e não o que está acontecendo na realidade. Assim, o espectador é confrontado com diferentes leituras da narrativa, podendo tranquilamente escolher qual delas “seguir”. A história se passa na penumbra ou no total escuro – muito do que nos aterroriza está fora do nosso campo de visão e é sugerido pelo som, podendo, ainda, estar sendo filtrado pelo medo da personagem Laura, que, inclusive, quase nunca sai de cena. Aliás, a construção sonora do filme é excelente, alternando silêncios profundos, música incidental e ruídos sugestivos. Sem ser found footage, a câmera está o tempo todo “na mão”, então prepare-se para muita imagem tremida, granulada (pela iluminação parca) e desfocada. O filme acerta muito em apresentar vagarosamente a ambientação – o espectador acompanha Laura “desbravando” os cômodos no escuro, pedacinho por pedacinho, e jamais conseguimos construir, na nossa cabeça, a disposição exata de cada quarto ou móvel, é um desespero! O tempo é linear, mas, como já afirmei, pode (ou não) estar sendo filtrado pela percepção de Laura. As cenas de jumpscare – são umas três ou quatro – funcionaram perfeitamente para mim – e arrancaram risos da minha filha pelos gritos que soltei, assustada. A atmosfera é de tensão crescente e angústia profunda. A cena de desfecho pode confundir – e até decepcionar ou irritar – o espectador por uma estranha mudança de ponto de vista, mas, eu acredito, que foi apenas uma dentre outras tantas alternâncias não tão objetivas de “olhar”. O filme conta com únicos três intérpretes, dos quais apenas a atriz que interpreta Laura fica constantemente em cena: Florencia Colucci, por sinal, está estupenda, transmitindo, com vigor e sinceridade, o medo e a confusão extremos da personagem. A obra “funciona” demais e a ambiguidade do olhar da história, para mim, ajudou muito na construção de tensão. Eu gostei do filme bastante e recomendo. Infelizmente não se encontra em streaming, só em torrent ou mídia física.



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