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  • hikafigueiredo

“A Dama de Shangai”, de Orson Welles, 1947

Filme do dia (135/2023) – “A Dama de Shangai”, de Orson Welles, 1947 – O marinheiro Michael O’Hara (Orson Welles) conhece a deslumbrante Elsa “Rosalie” Bannister (Rita Hayworth) e por ela se interessa. Ao saber que a moça é casada, tenta se desvencilhar dela, mas é convencido pelo marido de Elsa, Arthur Bannister (Everett Sloane), um renomado advogado criminalista, a trabalhar no iate do casal durante uma viagem a São Francisco. Durante a viagem, junta-se ao casal, o sócio de Bannister, George Grisby (Glenn Anders), que fará uma intrigante proposta a Michael.





O filme, do gênero policial e no melhor estilo noir, traz boa parte dos elementos que configuram o subgênero: um enredo de suspense, a obsessão romântica do protagonista por uma mulher misteriosa, a ambiguidade moral dos personagens, uma trama que envolve traição e deslealdade, um protagonista que é injustamente acusado de um crime, um narrador em primeira pessoa e, claro, a indispensável femme fatale. O protagonista Michael O’Hara conhece a jovem Elsa e logo se vê obcecado por sua beleza e magnetismo. Ainda que, num instinto de preservação e sobrevivência, ele tente se afastar da moça ao saber que ela é casada com um célebre advogado, ela o envolve de tal forma que ele acaba aceitando trabalhar para o casal em seu iate particular. Desde o primeiro minuto da narrativa, o personagem Michael é, gradativamente, enredado em uma trama que envolve traição e, quanto mais ele tente se desvencilhar, mais ele se embaraça em uma história que não lhe pertence. Se, no conteúdo, o filme é um noir por excelência, formalmente ele também não frustra o subgênero. Temos os notórios ambientes noturnos, esfumaçados e sombrios, a fotografia P&B muitíssimo contrastada, posições de câmera sofisticadas, criativas e inusitadas, que causam certo estranhamento no espectador. A direção de Welles, como de costume, é precisa e orquestra todos os elementos com perfeição. No elenco, o próprio Welles interpreta o “trouxa” de ocasião, Michael O’Hara – muito embora ele seja o personagem central, normalmente reservado para o herói ético, por ser um filme noir, desde cedo fica evidente que ele tem suas máculas morais, inclusive ele próprio confessa um homicídio no passado e algumas estadias no cárcere; no papel do advogado Arthur Bannister, um indefectível Everett Sloane – o personagem, por si, já causa certa repulsa, menos por sua deficiência física (muito embora seja claríssima a intenção capacitista dos atributos físicos do personagem) e bem mais por seu jeito insinuante e é interpretado com virtude pelo ator; como George Grisby, Glenn Anders – o personagem é ainda mais repugnante que Arthur Bannister e rapidamente reconhecemos nele sua corrupção ética, num excelente trabalho do intérprete; mas o ápice da obra é a estupenda Rita Hayworth como Elsa – a atriz, que tosou suas lindas madeixas ruivas e platinou o cabelo para o papel, surpreendendo todo o público, já era conhecida por seu sex appeal sem precedentes... imagine-a como femme fatale ! A atriz interpreta com maestria a pérfida Elsa, blindando-a com supostas delicadeza e ingenuidade que só se revelarão falsas nos últimos minutos da obra (ah, mas o público sabia, vai, não é spoiler!) Os destaques ficam por conta da cena de Bannister se auto interrogando, revelando um charme, uma presença de palco e um senso de humor inauditos no personagem e, claro, da cena na “casa maluca”, uma passagem cheia de significados ocultos (as imagens distorcidas que remetem à deformidade moral dos personagens e à trama traiçoeira onde nada é o que aparenta; os espelhos que se partem, que remetem ao estilhaçamento da falsa imagem apresentada por Elsa. Dentre outros). A obra, como tudo de Welles, é cirurgicamente construída e bem realizada, sem ter o que alterar. Eu gostei demais e recomendo muito!!!!

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