"A Despedida", de Lulu Wang, 2019

Filme do dia (237/2020) - "A Despedida", de Lulu Wang, 2019 - Billi (Awkwafina) é uma imigrante chinesa há muitos anos nos EUA. Ao saber que sua avó está desenganada, que a família esconde isso dela e que os familiares preparam um casamento às pressas para ter uma desculpa para ir vê-la na China, Billi resolve voltar ao país natal para reencontrá-la.





Baseada em uma história real, o filme discorre sobre afetos, memórias, identidade cultural, responsabilidade e perdas.A família, segundo um hábito chinês, resolve esconder da matriarca seu câncer em estado avançado, no intuito de poupá-la do sofrimento. Billi, fortemente influenciada pela cultura ocidental, não entende a decisão familiar e culpa-se por esconder a verdade da avó. Ao longo da narrativa, Billi terá de se reaproximar de suas raízes para compreender um pouco mais o pensamento chinês e como o peso dessa informação é carregado pelos familiares como uma forma de aliviar o sofrimento da idosa e uma maneira de demonstrar o seu amor por ela. É curioso como, tratando-se de um tema tão doloroso como a morte de uma pessoa querida, o filme flui com leveza e, até mesmo, poesia. Claro que há uma melancolia intrínseca na narrativa, uma tristeza tênue que permeia toda a história, mas, nem de longe causa, no espectador a angústia e o sofrimento esperado caso a obra tivesse origens latinas. Também não tem nada do melodrama tipicamente hollywoodiano que manipularia o espectador para arrancar o máximo de lágrimas que seus olhos poderiam produzir. Contrariando tudo, a obra segue altiva, sem cair em soluções fáceis e apelativas e, para completar, temos a cena final, pré-créditos que, além de surpreendente, ainda arranca um sorriso furtivo no espectador (quem for ver, deve esperar os créditos começarem a subir para parar de assistir ao filme). Achei muito interessante certas exposições sobre a cultura chinesa, como na cena do cemitério e na cena do casamento, tudo muito diferente dos hábitos ocidentais. Gostei demais da construção da personagem Billi, evidentemente dividida entre duas culturas tão distintas. Ótima interação entre a fotografia que faz uso de muita saturação e contraste e a direção de arte muito colorida, com profusão de vermelho. Awkwafina (mas que raio de nome é esse ?) interpreta uma Billi inicialmente muito segura de si, mas que, pouco a pouco, começa a se questionar acerca de sua identidade cultural - a atriz é ótima, gostei muito dela e curti o fato dela não seguir padrões de beleza pré-estabelecidos, pelo contrário, ela anda meio curvada, ela é bem diferente! Zhao Shuzhen interpreta a avó ("Nai Nai"), uma idosa adorável, mas, ao mesmo tempo, bastante dominadora. O filme é ótimo, bom demais, sensível sem ser choroso, melancólico sem ser meloso, perfeito. Recomendo com afinco.

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