“A Garota Canhota”, de Shih-Ching Tsou, 2025
- hikafigueiredo
- há 3 dias
- 3 min de leitura
Filme do dia (01/2026) – “A Garota Canhota”, de Shih-Ching Tsou, 2025 – A esforçada e sobrecarregada Shu-Fen (Janel Tsai) retorna para Taipei, sua cidade natal, com suas duas filhas – a jovem e rebelde I-Ann (Mah Shih-yuan) e a pequenina I-Jing (Nina Yeh) – após anos distantes do local. Ela abre um estabelecimento comercial na feira noturna de Taipei no qual serve lámen e tenta administrar vida, filhas e boletos, enquanto I-Ann trabalha em uma loja suspeita e a caçula desbrava a cidade e a feira noturna com curiosos olhos infantis. No entanto, entre pressões familiares e responsabilidades sociais, Shu-Fen traz questões que, cedo ou tarde, terão de ser resolvidas.

Lutando contra o clássico bloqueio criativo de início de ano, atenho-me a este delicioso filme que trata, não apenas de questões culturais taiwanesas/chinesas, mas, também, de assuntos de universalidade indiscutíveis. O foco é o núcleo familiar composto por uma mãe solo divorciada e suas duas filhas de idades bastante diferentes. Como qualquer mulher nessas condições em qualquer lugar do mundo, a personagem Shu-Fen luta para tocar a vida e administrar um volume insustentável de problemas. Endividada, sobrecarregada com o trabalho e o fato de ser o sustentáculo financeiro da família, cobrada por seus pais e irmãs, Shu-Fen ainda precisa lidar com a rebeldia de sua filha mais velha, não sobrando muito tempo para orientar a filha caçula, que vive solta pela cidade. Para piorar, Shu-Fen vive sob o rígido código social taiwanês/chinês o qual, surpreendendo zero pessoas, é fundado no mais extremo machismo estrutural. Paralelamente a isso, acompanhamos o cotidiano de I-Ann, a filha mais velha, uma ex-colegial brilhante que abandonou um futuro de sucesso certo para ajudar no sustento da casa, enquanto demonstra absoluto desprezo por convenções sociais. Mais uma vez paralelamente, temos o dia a dia da pequena I-Jing, que está descobrindo a cidade e o peso de ser quem é em uma família cujos avós e tios preocupam-se demasiadamente com a opinião alheia. No cômputo geral, temos uma história na qual todas as personagens têm um peso igual e significativo para a trama e no qual a condição feminina – sob o poder do patriarcado e das regras sociais por ele sustentadas – é a questão central. A direção de Shih-Ching Tsou é firme – apesar de ser sua primeira incursão na direção, a diretora é colaboradora contumaz do incrível diretor Sean Baker, o que fica muito evidente diante do olhar profundo para as questões femininas, algo recorrente nos filmes de Baker, que aqui aparece como roteirista e montador. Aliás, existe um diálogo bem rico entre esta obra e o irretocável “Projeto Flórida” (2017), filme dirigido por Baker e que tem, em Shih-Ching Tsou, sua produtora. É óbvio que, apesar do diálogo entre os filmes, este traz cores advindas da cultura local, o que aumenta consideravelmente o peso das tradições profundamente machistas sob as quais aquelas mulheres (sobre)vivem, bastando reparar na relação estabelecida entre Shu-Fen e o seu desprezível ex-marido para constatar esse fato. Mas não se preocupe: apesar de retratar essas questões femininas, sociais e culturais complexas e profundas, o filme não é panfletário e, tampouco, pesado; ao contrário, mesmo os assuntos mais espinhosos são tratados com uma surpreendente leveza e, muitas vezes, até mesmo com um humor rápido e divertido, com destaque para as cenas da personagem I-Jing, a caçulinha. Tecnicamente, destaco o desenho de produção que consegue retratar a vida conturbada da feira noturna de Taipei – não conheço a cidade, mas fiquei embriagada daquela vida que pulula naquele comércio – e a fotografia de cores muito saturadas, repleta de luzes e neons, que trazem uma vibração incomum para as imagens do filme. Quanto às interpretações, afirmo que o trio de atrizes principais é realmente excepcional – Janel Tsai consegue imprimir incríveis resiliência e determinação à sua personagem Shu-Fen; Ma Shih-yuan, por sua vez, traz uma revolta incontida e muito desgosto à personagem I-Ann; mas é a atriz mirim Nina Yeh quem rouba a cena – tão pequenininha e tão carismática, talentosa e fofíssima!!!! No elenco, ainda, Brando Huang como Johnny (adorei o personagem, simpatisíssimo!). O filme é bárbaro, uma delícia de assistir e está facinho no Netflix!



Comentários