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“Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, de Mary Bronstein, 2025

  • hikafigueiredo
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Filme do dia (02/2026) – “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, de Mary Bronstein, 2025 – A psicóloga Linda (Rose Byrne) está esgotada. Tendo de lidar com o reparo de um vazamento em sua casa, a doença rara de sua filha, a ausência do marido, os seus pacientes, dentre outras tantas coisas, ela se mostra cada vez mais sobrecarregada e sem condições de resolver tantos problemas que se acumulam. Sem ter qualquer sinal de solidariedade e empatia daqueles que a rodeiam, Linda apela para o álcool e as drogas, ao mesmo tempo em que busca a solução para seu caos.


 

Com uma temática importante, até mesmo necessária – a sobrecarga vivida pelas mulheres diante do acúmulo de funções representada pela carreira profissional, a maternidade e a vida de dona-de-casa – o filme, para mim, é um verdadeiro desserviço à causa feminista que defende uma melhor separação das responsabilidades dentro dos relacionamentos amorosos. Mas, qual o motivo dessa minha opinião tão contundente? A obra consegue, sim, retratar o ônus suportado pelas mulheres que assumem sozinhas – jamais por vontade própria, claro – as responsabilidades da maternidade e do lar enquanto tocam sua vida profissional. A jornada tripla da personagem Linda é agravada por particularidades da história: sua maternidade é mais sofrida por conta de uma espécie de anorexia que sua filha possui e que exige cuidados redobrados com sua saúde; o serviço doméstico, substituído pelo acompanhamento de uma obra em sua casa enquanto mora provisoriamente em um hotel, que exige ainda mais atenção; e a necessidade de lidar com os problemas trazidos por seus pacientes, a esgotar ainda mais a psicóloga Linda. Assim, a personagem realmente tem de arcar com responsabilidades e problemas muito além do razoável, tornando sua existência absolutamente insalubre, o que justificaria uma alteração de humor considerável. Mas, no filme, há mais do que isso. A realidade é que, muito embora eu entenda, na pele, o que é sobrecarga – uma viuvez precoce que me deixou responsável por duas filhas menores, trabalhando de sol a sol para ganhar pouco e ter recorrentes problemas financeiros fizeram com que eu vivenciasse muitas, inúmeras, ocasiões de caos -, a forma como a protagonista lida com tudo e interage com o mundo me fizeram desenvolver zero empatia pela personagem. Isto porque ela reage negativamente em relação a qualquer pessoa que atravesse seu caminho, inclusive àquelas que, de alguma forma, poderiam significar alguma rede de suporte. Não vou discutir que ela tinha razão quanto ao seu marido – o personagem em questão era o único realmente merecedor das respostas atravessadas que ela proferia, uma vez que se isentou de resolver qualquer problema familiar que surgisse sob a desculpa de ter de trabalhar (ora, isso Linda também tinha de fazer!). Mas, demais “coices” distribuídos aleatoriamente contra todos os demais personagens – a médica da filha, o psicólogo dela, o vizinho, o responsável pelo estacionamento do hospital –, completamente injustificados, tornaram-na uma pessoa insuportável! A personagem é antipática em um nível que nem a sobrecarga e o cansaço conseguem explicar. O filme, na minha opinião, peca ao criar uma protagonista tão pouco sensível ao outro – ela quer empatia, mas ela não a oferece a ninguém. Outra coisa que me incomodou foi a relação da protagonista com a filha, a qual, ainda que mimada e voluntariosa, continuava sendo uma criança doente, filha dela, de forma que demandava tanto amor, quanto firmeza – nenhum dos quais oferecido de uma forma satisfatória. Enfim, achei que o filme errou demais em trazer uma protagonista tão intragável. Por outro lado, a obra tem acertos – a câmera constantemente fechada no rosto da protagonista e a interpretação bem visceral de Rose Byrne são hábeis em transmitir a agonia da personagem, trazendo uma sensação de claustrofobia e “falta de ar”, algo bastante sensorial. A atriz foi agraciada com o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim (2025) e está muito bem cotada para o Oscar 2026. O filme estabelece um diálogo interessante com as obras “Como Nossos Pais” (2017), “Tully” (2018), “A Filhas Perdida” (2021) e, por mais estranho que seja, com o terror “O Babadook” (2014), todos os filmes retratando mulheres sobrecarregadas às voltas com cotidianos adoecedores. Confesso que, ainda que veja algumas virtudes na obra, eu não gostei dela e não me senti representada por ela, o que, na minha opinião, deveria acontecer. Em todo caso, pode ser uma leitura particular minha, então, indico para quem quiser conferir. Atualmente em cartaz nos cinemas.

 
 
 

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