• hikafigueiredo

"A Lenda de Candyman", de Nia DaCosta, 2021

Filme do dia (79/2022) - "A Lenda de Candyman", de Nia DaCosta, 2021 - Um artista plástico negro, Anthony McCoy (Yahya Abdul-Mateen II), casualmente descobre a lenda de Candyman, uma suposta entidade que assassinaria todos aqueles que o evocassem. Fascinado pela história, ele a utiliza como inspiração para uma obra de sua nova exposição, proporcionada através da ajuda de sua namorada, a marchand Brianna Cartwright (Teyonah Parris), e, sem saber, ele reaviva a antiga figura lendária.





Sem qualquer expectativa, peguei o filme para ver, imaginando tratar-se de uma refilmagem do interessante "O Mistério de Candyman" (1992). Para minha surpresa, a obra não se trata de uma cópia do filme original, mas sim uma instigante continuação daquele, agora sob uma nova perspectiva, muito mais densa e analítica. Filme de terror com crítica social? Sim, nós temos!!! A obra traz discussões necessárias como o racismo estrutural, a formação de guetos sociais, os processos de gentrificação proporcionados pela especulação imobiliária, a violência pautada nas questões raciais e as diferenças de olhar sobre o racismo (lugar de fala). Mostrando a íntima relação do racismo com a pobreza, o filme retrata um antigo subúrbio de Chicago, antes um bairro pobre e degradado, ocupado por uma maioria negra, agora transformado em bairro elitizado, ocupado por uma maioria branca e bem de vida, graças à gentrificação. Nesse bairro revigorado e majoritariamente branco, vivem Brianna e Anthony, ambos negros, ocupando um espaço que não lhes seria acolhedor, não fosse o sucesso profissional de Brianna, uma conceituada marchand de uma conhecida galeria de arte. Anthony encontra-se em uma crise criativa e está há algum tempo sem produzir nenhuma nova obra, mas, ao deparar-se com a lenda de Candyman - uma criatura maligna que se manifestaria sempre que fosse evocada, trazendo sangue e morte para quem ousasse chamá-la -, sente-se subitamente inspirado pela história. Desta forma, reaviva a lenda e contribui para o reaparecimento da entidade maléfica. A narrativa utiliza a história do filme original como base para desenvolver-se, mas aprofunda questões raciais que já existiam, mais timidamente, na primeira obra. Devo dizer que a explicação dada para o surgimento de Candyman é maravilhosamente colocada, de uma maneira pertinente e dolorosa, fazendo com que a criatura ganhe significado e, até mesmo, certa simpatia do espectador, não obstante o horror por ela espalhado. E a diretora Nia DaCosta vem se juntar a diretores como Jordan Peele, Barry Jenkins e Melina Matsoukas, todos resistência, voltados para a denúncia do racismo e comprometidos com a representatividade e o lugar de fala. Formalmente, o filme caracteriza-se por certo convencionalismo, mas vemos, aqui e ali, algumas ousadias formais, como certas cenas da cidade, com uma câmera mais "solta" e movimentada e algumas cenas de contra-plongée absoluto (câmera a 90º do solo, voltada completamente para cima). A narrativa é prioritariamente linear, mas há várias cenas de flashback, inclusive a que abre o filme. O ritmo é bem marcado e crescente, e a montagem mostra-se bem encadeada, exceto em uma sequência, já no final da obra, onde eu senti "um pulo" na narrativa, única coisa que me incomodou na obra. O elenco, de maioria negra, traz Yahya Abdul-Mateen II como Anthony, numa boa interpretação (além do ator ser lindo!); Teyonah Parris como Brianna, também muito bem; Tony Todd como o Candyman original, refazendo o personagem que interpretou na obra inicial; Nathan Stewart-Jarrett como Troy, irmão de Brianna; e Colman Domingo como Willian Burke. O filme é verdadeiramente ótimo e, não fosse o tal "pulo" da narrativa, seria realmente perfeito. Gostei bastante, traz uma crítica social incrível e deixa a gente tenso - recomendo!!!

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