top of page

“A Lenda do Santo Beberrão”, de Ermanno Olmi, 1988

  • hikafigueiredo
  • 12 de out. de 2025
  • 3 min de leitura

Filme do dia (80/2025) – “A Lenda do Santo Beberrão”, de Ermanno Olmi, 1988 – Andreas Kartack (Rutger Hauer) é um mendigo alcoólatra que dorme sob as pontes de Paris e que, certo dia, recebe uma grande quantia de um senhor, com a condição de devolver o dinheiro, quando puder, à imagem de Santa Teresa em uma igreja local. Descontrolado, Andreas gasta todo o dinheiro em bebida, mas, dia após dia, milagres começam a acontecer.


 

Nesse sensível filme sobre vício e redenção, acompanhamos alguns dias do alcóolatra Andreas e sua tentativa desesperada – e frustrada – de cumprir uma promessa. Através de suas lembranças, descobrimos como era sua vida antes do vício, as expectativas que tinha, como foi parar nas ruas e o motivo que o levaram a se afundar no álcool. Impossível não se compadecer por Andreas, um homem que tinha família e sonhos e que, na medida do possível, tentava honrar sua história e sua própria pessoa. Percebemos que o personagem, muito embora um adicto, mantinha princípios, era empático, mostrava-se amigo, era um cavalheiro e, por vezes, ingênuo, face à sua bondade intrínseca e sua incapacidade de fazer mal aos demais. Interessante, ainda, ver como os demais personagens interagiam com ele – alguns o acolhendo, confiando nele, dando-lhe oportunidades, ajudando-o e outros, simplesmente, aproveitando-se de sua inocência. Terminei o filme com um sincero sentimento de afeto pelo personagem Andreas! Ainda que o filme se passe em Paris, estamos longe de ver os cartões postais da cidade-luz – ao contrário, passamos a maior parte do tempo vendo os becos, os bares simples, as ruas vazias sob as pontes, os cantos esquecidos da cidade, onde as pessoas em situação de rua dormem ou se protegem das chuvas. Pode parecer que a obra tem uma atmosfera depressiva, mas não se engane – acontecem coisas boas com Andreas, ele tem momento felizes e isso parece transbordar para a narrativa, de forma que não sentimos tanto o peso de seu vício, mas, sim, suas breves alegrias. A narrativa é linear, mas entremeada de lembranças em flashback que nos ajudam a reconstruir sua história. O ritmo é moderado e constante, sem um clímax definido. Tecnicamente, temos um filme perfeito em suas minúcias. A trilha sonora de Stravinsky dá o tom, conduzindo a atmosfera nos altos e baixos do protagonista. A fotografia em tons quentes ajuda a criar toda uma proximidade e empatia pelo personagem e sua situação. O desenho de produção é minucioso – percebemos o colarinho puído da camisa de Andreas e suas unhas sujas, mesmo ante a evidente tentativa dele de se mostrar digno. E coroando todo o filme temos Rutger Hauer, um ator fenomenal e ultra versátil, maravilhoso em qualquer papel (e, vamos combinar, lindíssimo!). Seu olhar de fragilidade mostra-se tocante desde sua primeira cena – o espectador mergulha em todos os sentimentos que aqueles olhos revelam! No elenco, ainda, Sophia Segalen como Karoline, Jean-Maurice Chanet como Daniel Kanjak, Sandrine Dimas como a ardilosa Gabby e Dominique Pinon como o odioso Woitech (primeiro papel do ator – que eu adoro! - que me deixou com raiva de seu personagem!!!!). O filme é tão delicado, tão cândido e tão bom que foi agraciado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza (1988). Eu amei tudo no filme, recomendo demais! O filme está disponível em streaming no Looke e Disney Plus.

 
 
 

Comentários


bottom of page