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“A Lula e a Baleia”, de Noah Baumbach, 2005

  • hikafigueiredo
  • 28 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

Filme do dia (73/2025) – “A Lula e a Baleia”, de Noah Baumbach, 2005 – Nova Iorque, 1986. Bernard (Jeff Daniels), um professor de literatura e escritor, e sua esposa Joan (Laura Linney), uma aspirante a escritora, decidem se divorciar. Os filhos Walt (Jesse Eisenberg), de 16 anos, e Frank (Owen Kline), de 12, se veem em meio a um fogo cruzado subliminar, e acabam por tomar partido de algum dos lados, enquanto tentam conviver com a separação.


 

Neste filme semibiográfico, o diretor Baumbach explora, com crueza e um certo humor ácido, as minúcias de um divórcio e os reflexos dele nos filhos resultantes do casamento. Embora contenha algum humor e tenha sido apresentado como uma comédia dramática, eu entendo a obra como um drama, pois as angústias dos envolvidos – em especial, dos filhos – são por demais evidentes e suplantam, em muito, os alívios cômicos. Na história, acompanhamos a separação de Bernard e Joan, os quais aparentavam um casal feliz, muito embora, na intimidade, a relação passasse por provações pesadas. Os filhos são pegos de surpresa e ficam claramente confusos com a nova realidade. Tendo, a decisão pela separação, partido de Joan, ela rapidamente recebe o “selo” de culpada, motivo pelo qual o filho mais velho, Walt, volta-se contra ela. O filho mais novo, por sua vez, mais apegado à mãe, opta por estar ao lado dela. Com uma fratura evidente, as relações familiares mostram-se abaladas e em franca decadência. Algo que me agradou muito no filme é não existir um lado excessivamente ruim, ou melhor dizendo, errado. Tanto Joan, quanto Bernard, contribuíram pelo fim do relacionamento – um por buscar, fora do casamento, aquilo que sentia falta; o outro, por ignorar as necessidades da relação. Mas, o que definitivamente mais me agradou foi a construção dos personagens, em especial Bernard e Walt. Bernard surge como o típico homem intelectual de autoestima invejável. Ainda que não seja um troglodita do tipo que agride a companheira, ele é absolutamente tóxico em suas minúcias. Arrogante, ele se sente superior à ex-esposa, diminuído seus feitos e qualidades, enquanto inveja o sucesso que o primeiro livro dela está fazendo. De uma maneira sutil, manipula o filho Walt, expondo os erros íntimos da ex-companheira, assim como tenta moldar os filhos com preceitos machistas e misóginos. Walt, por sua vez, espelha-se no pai, reproduzindo atitudes egoístas e tóxicas, não só em relação à mãe, mas a toda e qualquer mulher com quem conviva. Joan mostra-se imperfeita – e quem o é? -, mas disponível aos filhos, enquanto tenta reconstruir sua vida. A mágoa claramente pesa mais para Bernard, que se vê engessado naquele fim de relação, o que o leva a sabotar a convivência com a ex-esposa e o relacionamento dos filhos com ela e consigo próprio. Por fim, o caçula Frank é o personagem que se sente mais perdido e começa a ter atitudes inusitadas como válvula de escape, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais apegado à mãe. O filme expõe, cirurgicamente, a complexidade das relações familiares quando em situações de conflito, sem demonizar nenhum dos lados, mas, tampouco, aliviar nos erros e atitudes lamentáveis de cada integrante da família. Destaco o roteiro muito bem formulado, amarradíssimo e cheio de sutilezas. Outro destaque está na trilha sonora – gostei de como as músicas incidentais são utilizadas: usualmente as músicas ocupam os tempos sem diálogo; aqui temos, por diversas vezes, o uso concomitante de diálogo e música incidental ao fundo, construindo uma atmosfera aconchegante em momentos pontuais. A atmosfera, aliás, é de um leve aperto no coração – não é uma angústia lancinante, é mais uma tristeza leve, mas que dá para conviver. Quanto à interpretação dos atores, o quarteto principal revela um trabalho impecável: Jeff Daniels está incrível como Bernard, pois, muito embora o personagem seja detestável, ele é completamente crível, isto é, não há um exagero no seu comportamento; Laura Linney, da mesma forma, traz muita humanidade à Joan, pois a personagem erra na intenção de acertar, e muitas vezes põe os pés pelas mãos; Jesse Eisenberg e Owen Kline também trazem um trabalho de alta qualidade, pois Walt e Frank são a imagem da desilusão e confusão – absolutamente convincentes. O filme foi indicado ao Oscar (2006) de Melhor Roteiro Original; ao Globo de Ouro (2006) de Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Atriz em Comédia (o que eu discordo veementemente) e fez sucesso no Festival de Sundance (2005), onde foi agraciado pelos prêmios de Melhor Direção e Melhor Roteiro. Eu gostei muito da obra, principalmente por conseguir mostrar detalhes tão sutis das relações humanas sem cair em maniqueísmo barato. O filme encontra-se atualmente em streaming pelo HBO Max e para alugar no Apple TV.

 
 
 

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