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“A Meia-Irmã Feia”, de Emilie Blichfeldt, 2025

  • hikafigueiredo
  • há 11 minutos
  • 3 min de leitura

Filme do dia (05/2026) – “A Meia-Irmã Feia”, de Emilie Blichfeldt, 2025 – Elvira (Lea Myren) é uma jovem cujos atributos físicos não se encaixam nos padrões vigentes. Apaixonada, sonha em se casar com o príncipe do reino. Quando a corte anuncia um baile e todas as jovens solteiras são convidadas, Elvira passa a travar uma batalha contra o tempo para se encaixar nos padrões, ao mesmo tempo em que tenta impedir sua bela meia-irmã Agnes (Thea Sofie Loch Naess) de comparecer ao evento.


 

Apoiando-se no body horror e do humor ácido, o filme reconta o célebre conto-de-fadas “Cinderela” sob a ótica de uma das irmãs da então protagonista Cinderela. A versão sombria e desconfortável desconstrói a história utilizada para encantar menininhas e revela a lógica cruel e desumana que está por trás do conto de fadas em questão - é através dele que a diretora Emilie Blichfeldt expõe alguns dos mais sólidos pilares do patriarcado e do machismo estrutural: a objetificação da mulher, o esvaziamento do potencial feminino e o fomento à rivalidade entre as mulheres. A questão central do filme é a busca incessante pelos padrões estéticos impostos socialmente às mulheres pelo patriarcado. Na nossa sociedade machista, o valor de uma mulher é medido pelos seus atributos físicos e por quanto estes estão de acordo com aquilo que é considerado belo. Nesse contexto, a figura feminina é coisificada, ela é vista como um mero invólucro que existe para satisfazer os homens. Outros atributos que passem ao largo das características físicas – inteligência, cultura, talento – são desprezados e colocados em segundo plano, quando não completamente descartados. Sob esse peso social, mulheres são incentivadas a gastar seu tempo e seus esforços para perseguir tais padrões estéticos – nas mais das vezes, inalcançáveis –, bem como a validação dos homens, como se seu valor dependesse dessa validação.  Essa sociedade machista, da mesma forma, promove uma cultura de rivalidade entre mulheres, as quais atracam-se às suas iguais por atenção masculina. O filme, de uma maneira que vai do deboche ao horror, faz uma crítica muito severa a todas essas questões, levando-as aos limites do absurdo. Elvira, a protagonista, é a “meia-irmã feia” de Cinderela e ela sofrerá horrores para tentar se adequar aos padrões e ser vista como uma jovem bonita pelo príncipe pela qual ela está apaixonada. É curioso que, por este ângulo, a personagem Cinderela é completamente privilegiada apenas por estar dentro daquilo que se espera esteticamente – ela não tem nenhuma outra virtude digna de nota, ela é aquilo, um rostinho bonito e isso é suficiente para ganhar o coração do príncipe. A obra tem tantas camadas quanto a disposição do espectador em “lê-las” e entendê-las, mas é fato que é um filme crítico e muito adequado às percepções feministas da nossa realidade. Saliento que é um filme incômodo, inclusive por ter um pé muito fincado no gore, mas não só por isso – para o público feminino, é um soco no estômago, pois escancara o quanto nossa sociedade nos desumaniza e despreza. Destaco o desenho de produção que envolve com cores sombrias todo o conhecido conto de fadas; destaco também a fotografia colorida bem contrastada e que aposta bastante em plano muito fechados. Algo que me incomodou foi a trilha sonora que me pareceu muito “contemporânea” para uma história de outra época (não sei explicar ao certo, mas me desagradou profundamente). Quanto às interpretações, achei sensacional o trabalho de Lea Myren como Elvira – há um exercício físico potente na protagonista, ela é submetida a tantas “torturas” e a atriz consegue fazer com que tudo seja crível e natural, mesmo sendo totalmente absurdo (na minha ótica que acha até botox uma violência inaceitável). No papel da mãe/madrasta Rebekka, uma maravilhosa Ane Dahl Torp – que ódio que dá essa personagem, juro!!!!! Como Cinderela/Agnes, Thea Sofie Loch Naess – confesso que eu também não desenvolvi muita simpatia pela personagem, mas certamente foi uma escolha da diretora. No elenco, ainda, Flo Fagerli como Alma e Isac Calmroth como Principe Julian. O filme traça um diálogo MUITO sólido com o filme “A Substância” (2024) – são elucubrações sobre o mesmo tema, obras irmãs. O filme foi indicado para o Oscar (2026) na categoria de Melhor Maquiagem. Eu adorei o filme, apesar de achá-lo profundamente incômodo. Recomendo demais, em especial para mulheres críticas. Atualmente na grade do streaming Mubi.

 
 
 

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