“A Melhor Mãe do Mundo”, de Anna Muylaert, 2024
- hikafigueiredo
- 11 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Filme do dia (57/2025) – “A Melhor Mãe do Mundo”, de Anna Muylaert, 2024 – A catadora de recicláveis Gal (Shirley Cruz) foge de casa com seus dois filhos na tentativa de se desvencilhar de Leandro (Seu Jorge), seu marido violento. Para tanto, finge estar vivendo uma grande aventura no intuito de preservar a inocência das suas crianças.

Este filme – absolutamente necessário – discorre sobre violência doméstica, ciclo de violência e alternativas para quebrar tal ciclo. A narrativa acompanha a luta da catadora de recicláveis Gal para colocar um fim no relacionamento tóxico que vive com seu marido Leandro. Mãe de duas crianças, dependente financeira do marido – uma vez que o que consegue com seu trabalho é insuficiente para sustentá-la e aos dois filhos -, Gal foge de casa, no desespero, levando consigo os filhos. Ela alega, para as crianças, que eles estão em busca de uma grande aventura e tenta não demonstrar desespero ou desânimo na frente deles. Transformando a fuga em uma grande diversão para os filhos, Gal passa alguns dias na rua, mas acaba voltando para o marido abusivo, por quem ainda nutre sentimentos. Mas será que ela conseguirá perdoá-lo pelos seus atos? O filme foi o primeiro que eu me lembro de ter visto que foca no ciclo de violência, o processo em que a vítima não consegue se desvencilhar de seu abusador e sempre acaba voltando para a relação tóxica, pelos mais variados motivos. Sem fazer um juízo de valores e, muito menos, culpabilizar a vítima, a obra retrata as dificuldades enfrentadas por mulheres dependentes financeira e emocionalmente de seus homens, expondo os muitos motivos que as levam a resistir ao afastamento e término da relação abusiva e que vão da crença na mudança, à preocupação com o bem-estar dos filhos, passando pelo medo, pela vergonha e, até mesmo, pela culpa autoimposta. O filme demonstra que o rompimento não é assim tão simples e que exige forças hercúleas para romper o ciclo de violência – é difícil, sim, MAS... não é impossível. O filme ainda trata de empoderamento feminino, sororidade, movimentos sociais, solidariedade, inclusão da mulher no mercado de trabalho, além de resvalar, não tão sutilmente, em questões raciais. Gostei de ver a discussão de questões femininas a partir da perspectiva das classes populares, o que é muitíssimo diferente de tê-las sob a perspectiva de uma classe média mais abastada (como foi em “Como Nossos Pais”, 2017, em que a protagonista tinha problemas muito “white people problem”, o que me gerou um ranço absurdo da obra). As questões de Gal são tãããão mais problemáticas e complexas que as de Rosa, protagonista do filme “Como Nosso Pais”, que deu até vergonha alheia de perceber a conexão entre as histórias. Uma crítica: achei o título do filme um pouco inadequado para a obra. Na minha visão, o cerne da narrativa é a mulher Gal, é a sua libertação, seu empoderamento enquanto mulher. A maternidade, aqui, fica em segundo plano e, ainda que exista sim o peso da maternidade a pressionar a protagonista e que o diálogo com a filha talvez fosse o último empurrão que ela precisava para tomar a decisão de sua vida em mãos, achei o título que hiper valoriza a maternidade um deslocamento injustificado do foco real da obra. Outra crítica: achei a personagem Rihanna meio mal construída (ainda que a atriz mirim esteja ótima na sua interpretação) – quando a família sai de casa, a filha reclama, não quer se afastar daquela vida que ela leva e quer retornar para sua casa; mais para o fim da narrativa, a mesma personagem diz que tem medo de Leandro e não se sente segura com ele – ora, as duas passagens são contraditórias e não há muito entre elas que justifique a mudança súbita de opinião da menina, motivo pelo qual vi tudo isso como um equívoco conceitual na construção da personagem. Mas ambas as críticas são ínfimas diante da força da história e das questões apresentadas. Vale destacar a qualidade do elenco, começando pela maravilhosa Shirley Cruz – não consigo imaginar ninguém melhor para o papel de Gal, uma mulher real, não idealizada e, tampouco, objetificada, como tantas vezes vemos no cinema (diretora mulher, né? Isso faz toda a diferença!). Seu Jorge também está incrível, trazendo nuances ao seu personagem que o fazem tão humano, quando tóxico, e sem qualquer hipótese de mudança. Rihanna Barbosa interpreta a filha Rihanna e é uma atriz mirim maravilhosa. Destaque, ainda, para Rejane Faria como Munda e Luedji Luna como Valdete. Enfim... o filme é irretocável, trata de temas obrigatórios, abraça o elenco majoritariamente feminino, e abre espaço para discussões muito necessárias na nossa sociedade. Eu gostei demais e recomendo muito. Atualmente em cartas nos cinemas (eu vi no Cinesystem Frei Caneca).



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