• hikafigueiredo

"A Mulher da Areia", de Hiroshi Teshigahara, 1964

Filme do dia (384/2020) - "A Mulher da Areia", de Hiroshi Teshigahara, 1964 - Um professor que estuda insetos parte para uma viagem a um amplo areal repleto de dunas e afastado de tudo. Ao perder a hora para pegar o último ônibus para Tóquio, ele é convencido pelos aldeões a pernoitar na casa de uma mulher que vive em um enorme buraco em meio ao areal. A decisão irá se mostrar equivocada, pois ele descobrirá tratar-se, tudo, de uma armadilha.





Angustiante e desesperador, o filme é baseado no romance homônimo de Kobo Abe, e trata-se de uma perturbadora alegoria acerca da condição humana. Discorrendo sobre temas como o sentido da vida, as aspirações humanas, a luta pela sobrevivência, as disputas por poder, a solidão, a necessidade de afeto, o pertencimento, a condição feminina, o sexo como barganha e como válvula de escape, dentre outros tantos temas universais e comuns aos seres humanos, a obra é um legítimo representante da Nouvelle Vague japonesa. Algo que me chamou a atenção no filme é como ele expõe a capacidade humana de se adaptar e como o conformismo pode ser confortável; a obra também mostra a tendência das pessoas em viverem numa certa inércia, aceitando aquilo que lhe é posto à frente e vivendo de acordo com suas limitações e pequenas aspirações. A narrativa é dramática, trágica até, mas traz alguns inegáveis elementos do cinema de suspense e horror, principalmente no seu início. É uma obra profundamente sensorial, onde o espectador não apenas compreende racionalmente a história, mas absorve seus significados no âmbito do emocional - em outras palavras, inúmeros sentimentos vêm à tona enquanto você assiste ao filme, a maior parte deles não muito agradáveis. Eu me senti realmente transtornada com a situação dos dois personagens centrais - o professor Niki Jumpei e "a mulher", esta última sequer merecedora de um nome. Eu poderia desandar a escrever sobre os significados do que vi e senti durante o filme, mas, justamente por ser muito sensorial, acredito que esta seja daquelas obras cuja experiência cinematográfica tende a ser bastante pessoal e particular - e o que valerá para mim, possivelmente não faça qualquer sentido para outra pessoa. A narrativa é linear, o ritmo é bem lento e a atmosfera é profundamente angustiante. A fotografia P&B é muito contrastada. Algo que é marcante na obra são os infinitos planos de detalhes e closes profundos - veja bem, não se tratam de closes de rosto, são planos tão próximos da pele que cada grão de areia do corpo e do rosto dos personagens tornam-se pontualmente visíveis; são fios de cabelo presos ao suor da pele que podem ser contados; são olhos onde os cílios são perceptíveis, um a um. As cenas de sexo perdem qualquer significado relacionado a afeto, a amor e até mesmo a desejo - o que temos é a exasperação, o desespero, o poder, a barganha, o medo, o terror. Sim, as cenas de sexo, ao contrário de serem momentos de distensão, são pontos de verdadeiro esgotamento emocional. A trilha sonora, ainda que pontual, coaduna-se perfeitamente a essa angústia trazida pelas imagens. Quanto às interpretações, Eiji Okada está muito bem como o professor Niki Jumpei, mas, na minha opinião, é a atriz Kyoko Kishida quem rouba a cena como a submissa, solitária e desesperada mulher - poucas vezes vi um olhar tão angustiado, pedindo tanto por aceitação. O filme é completamente maravilhoso e totalmente irretocável - sério, não vejo como ele poderia ser melhor ou mais impactante. A obra foi agraciada com o Grande Prêmio do Júri em Cannes e concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro naquele ano. Eu diria, ainda, que ele dialoga lindamente com outra grande obra da Nouvelle Vague japonesa, a ótima "A Ilha Nua" de Kaneto Shindô - ambos tem o mesmo climão pesado. Eu fiquei estarrecida com a obra, totalmente tomada por ela. Vale cada segundo de duração. Recomendo demais!!!!

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