• hikafigueiredo

"Adam", de Maryam Touzani, 2019

Filme do dia (151/2019) - "Adam", de Maryam Touzani, 2019 - Samia (Nisrin Erradi) é uma jovem grávida que vaga pelas ruas de Casablanca atrás de um emprego. Ela bate na porta da viúva Abla (Lubna Azabal), que inicialmente rejeita Samia. Mas Abla não conseguirá dormir sabendo que Samia está do lado de fora - e esse contato mudará a vida das duas mulheres.






Este belíssimo filme marroquino discorre acerca da condição feminina e das dificuldades em se ver mulher e sozinha em um mundo essencialmente dominado pelos homens. Abla é uma mulher solitária, endurecida pela vida após a morte de seu marido, que trata com rigor sua única filha Warda, de oito anos. Trabalhando de sol a sol em sua pequena padaria doméstica, Abla não se permite distrações ou prazeres de qualquer espécie. Samia, já no final da gravidez, consegue sorrir e se emocionar, a despeito de sua terrível condição de grávida e solteira em um país de forte influência árabe. Num lindo exercício de empatia e sororidade, as duas mulheres se ajudarão, oferecendo, uma à outra, o apoio e compreensão negados pela sociedade em geral. Se por uma lado, é incômodo perceber quão difícil é ser mulher em decorrência do machismo da sociedade, por outro é estimulante ver, ao longo do filme, a capacidade de mulheres se apoiarem mutuamente, modificando suas realidades apenas com suas presenças. Logicamente, é um filme especialmente feminino, bastante intimista e extremamente delicado, que vai, certamente, tocar mais as mulheres do que os homens. Há momentos realmente angustiantes, em especial no fim da história. A fotografia escura, com a paleta de cores voltada para tons terrosos, traz peso e sobriedade às imagens. A trilha sonora é formada, basicamente, por músicas regionais. No elenco, Nisrin Erradi como Samia, com olhos muito expressivos, consegue alternar momentos de tensão com certa leveza, em especial quando a personagem brinca com Warda, a filha de Abla. Já a magnífica Lubna Azabal - conhecida por seu papel de protagonista em "Incêndios" (2010) - no papel de Abla, mostra uma mulher fechada para o mundo, que vive em constante defesa, o que consegue transmitir com sua fisionomia séria e semblante constantemente tenso. Grande filme, ainda que difícil de digerir, deveria ser visto por todas as mulheres (mas não só por elas). Recomendo.

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