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"Adeus Minha Concubina", de Chen Kaige, 1993

Filme do dia (393/2020) - "Adeus Minha Concubina", de Chen Kaige, 1993 - China, meados da década de 30. Uma prostituta leva seu filho Cheng Dieyi (Leslie Cheung) para uma companhia artística para ele ser treinado nas artes teatrais. Lá ele conhecerá a dura rotina da companhia, baseada em severos castigos físicos, e fará amizade com Duan Xiaolou (Zhang Fengyi), outro aluno da companhia.





Baseado no romance homônimo de Pik Wah Lee, o filme discorre sobre a conturbada relação de Cheng e Xiaolou ao longo de quarenta anos desde os estudos na companhia artística até o sucesso frente à Ópera de Pequim. Ainda que o foco sejam os dois personagens, o destaque fica por conta da história recente da China, que deixa de ser mero pano de fundo para funcionar como verdadeiro vetor de mudanças quanto ao destino da arte chinesa, levando, a reboque, a vida dos dois artistas. Na história, Cheng Dieyi especializa-se nas personagens femininas das óperas chinesas, pois, desde criança apresentava traços e movimentos delicados, enquanto Xiaolou especializa-se nos personagens masculinos. Tornam-se, então, parceiros de palco, encenando, principalmente, a ópera "Adeus Minha Concubina". No entanto, o envolvimento de Xiaolou com a prostituta Juxian abala a parceria, dando início a um intrincado triângulo com Cheng, envolvendo ciúmes e traições por todos os lados. A narrativa começa com os artistas em 1977 e passa, em seguida, para um grande flashback, terminando no mesmo momento da cena inicial. O ritmo é marcado, com picos de velocidade relacionados aos momentos históricos mais conturbados (invasão da China pelo Japão, subida ao poder do governo popular, Revolução Cultural). A atmosfera geral é de tensão e angústia dada a narrativa trágica dos personagens. Aliás, a construção destes personagens é sublime e, como pessoas verdadeiras, todos passam por diferentes fases, despertando, inclusive, sentimentos contraditórios no espectador. Destaque total para a fotografia belíssima, com cores muito brilhantes e saturadas, e para a direção de arte de época, alcançando um intervalo de quarenta anos de história. O elenco está à altura dos personagens: Leslie Cheung está maravilhoso como Cheng - ele tem uma delicadeza nos movimentos que eu não terei nem em cem anos e traz todo o peso da história pessoal de seu personagem andrógino e ambíguo para a tela; Zhang Fengyi também está maravilhoso como Xiaolou, mas traz seu ápice absoluto na cena da Revolução Cultural; como Juxian, a magnífica Gong Li, provando todo o seu talento - o espectador vai sentir toda a sorte de sentimentos por Juxian, de ódio profundo, a simpatia e pena (o olhar da personagem na cena da Revolução Cultural já valeria o filme por si só). É uma filme bastante complexo e melancólico, mas maravilhoso. A obra foi agraciada com a Palma de Ouro em Cannes, o Globo de Ouro de Filme Estrangeiro, o BAFTA nessa mesma categoria e ainda concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Fotografia. Eu amo essa obra e já a assisti por três vezes, gostando cada vez mais dela. Recomendo demais para qualquer público.

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