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  • hikafigueiredo

“Aftersun”, de Charlotte Wells, 2022

Filme do dia (105/2023) – “Aftersun”, de Charlotte Wells, 2022 – Em um verão longínquo, a pequena Sophie (Frankie Corio) passa alguns dias de suas férias na Turquia com seu pai Calum (Paul Mescal). No presente, Sophie, já adulta, relembra, como num sonho, esses momentos.





Um filme extremamente sensorial, “Aftersun” discorre sobre as memórias cálidas da personagem Sophie sobre um verão em particular. Em viagem com seu pai, a menina, de onze anos, começa a descobrir o mundo, sem perceber o momento doloroso pelo qual seu pai passa. Enquanto Sophie vivencia, com alegria, novas experiências, em um mundo que se abre para a pré-adolescente, o homem oculta de sua filha um sofrimento profundo cuja origem nos é somente sugerida (problemas profissionais? Questões financeiras? Solidão?). Com sensibilidade, a obra esconde fatos mais do que os revela, o que não impede de transmitir sentimentos bastante contundentes sobre ambos os personagens. É um filme sobre memórias, sobre dúvidas, sobre afeto acima de tudo. Calum é um pai presente, amoroso, dedicado, paciente, que esconde um lado sombrio e tristonho de sua alegre e agitada filha pré-adolescente. A história não explicita o que ocorre com Calum após essa viagem, mas minha intuição grita que esses foram seus momentos finais com Sophie. Antes de mais nada: o filme permite diferentes leituras, não é uma obra fechada em si mesma. É uma narrativa fluida, mutável, e o espectador a compreende muita mais através dos sentimentos que ela desperta que através do racional. É curioso... o filme desperta emoções e sensações tão fluidas que é difícil, ao espectador, nomeá-las e “compactá-las” em uma definição única e estanque. É perceptível, no entanto, que a Sophie adulta lembra com carinho daqueles momentos, ao mesmo tempo em que se questiona e busca respostas acerca de seu pai. A narrativa é não-linear, mesclando o presente e o passado. O ritmo é lento, moroso, preguiçoso, como um fim de tarde na praia nas férias. A atmosfera é quente, aconchegante, mas há um certo sentimento de algo não está certo, uma dúvida no ar. Existe ainda, nessa atmosfera, algo de onírico, de fantasioso, como se parte destas lembranças não fossem totalmente condizentes com a realidade. Achei interessante como o filme sugere que as reminiscências de Sophie são um reflexo dos acontecimentos, uma leitura particular da personagem – são infinitas as cenas em que vemos os personagens indiretamente, seja por um reflexo em um vidro, seja por um recorte em um espelho, seja pelas imagens de uma câmera, ou de costas para o público, o fato é que existe uma percepção, uma leitura anterior à nossa daquela narrativa. Aliás, formalmente, o filme é profundamente sugestivo – através de inúmeros planos esquisitos e diferentes e posicionamentos de câmera inusuais, com recortes que causam estranheza no espectador, a obra transmite a ideia de algo fora do lugar, um sutil sentimento de inadequação e um questionamento sem resposta convicta. É, definitivamente, o filme é puro sentimento, e me deixou meio pensativa e algo contemplativa. Impossível falar da obra sem mencionar o trabalho sólido e irretocável de Frankie Corio e, principalmente, de Paul Mescal. Se a menina mostra-se uma atriz mirim talentosa e com muito futuro, Mescal arrebata como o conflituoso Calum. É incrível como o ator consegue transmitir um quê de solidão e um interior bastante depressivo, mesmo quando seu personagem está brincando e dançando com a filha – algo em seu olhar, algo em sua movimentação corporal, alguma coisa denuncia seu interior caótico e tristonho, e o público SENTE DEMAIS isso. Por essa interpretação delicada, espessa e coesa, Paul Mescal foi indicado ao Oscar (2023) de Melhor Ator, assim como ao Prêmio BAFTA (2023) e ao Critics’ Choice Award (2023), dentre outras premiações e festivais menos célebres, na mesma categoria. A obra é fantástica, um achado para quem gosta de filmes mais sensíveis e intimistas. Eu me apaixonei pelo filme e o recomendo com fervor!!!!

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