• hikafigueiredo

"American Honey", de Andrea Arnold, 2016

Filme do dia (191/2020) - "American Honey", de Andrea Arnold, 2016 - Star (Sasha Lane) vive um relacionamento desgastado e abusivo. Um dia, Star cruza um grupo de jovens que vagam pelos EUA vendendo revistas de porta em porta e levam uma vida livre e desregrada. Encantada por Jake (Shia LaBeouf), um dos integrantes da trupe, Star abandona sua casa para se integrar ao grupo.





A primeira vista, este filme pode parecer apenas mais um road movie de tantos que existem por aí. Mas não. Esse interessante filme indie, traz, como temática, o outro lado da "América", isto é, o mundo que existe nos EUA que não se encaixa no "sonho americano" - jovens sem perspectivas, completamente alheios à sua condição de "refugo" do capitalismo, politicamente inconscientes, totalmente à margem do sistema mas que, ainda assim, sonham em se integrar a ele, pois não têm qualquer intenção de bater de frente contra aquilo que os exclui e os trata como lixo. A obra mostra a "América" miserável, o país que é escondido sob o tapete da riqueza e do sucesso, mas que engloba milhões de americanos que se sujeitam e acreditam, piamente, que sua miséria é inevitável, que foi apenas uma falta de sorte ou que eles apenas não se esforçaram o suficiente - aquele papo de meritocracia, sabe? Tendo como pano de fundo o fim do "american dream", a obra acompanha a trajetória de Star, a menina que tem sonhos acerca dos quais ninguém pergunta. Ela se integra ao grupo que vende revistas para sustentar a chefe Krystal (Riley Keough), que faz cosplay de capitalista e que explora e trata com mão de ferro os jovens desgarrados que cruzam seu caminho. Sem perder de vista o lado feio dos EUA, a obra mostra a perda da inocência e dos sonhos românticos da jovem protagonista. Apesar da temática ser, no fundo, pesada, o desenrolar da narrativa acontece com certa leveza, muito por conta da alegria vazia e irresponsável da trupe. O roteiro é bem amarrado e flui com facilidade. O tempo é linear e o ritmo alterna momentos mais intensos com outros mais serenos. A fotografia aposta em muitas câmeras na mão, planos fechados em detalhes, com cores bem saturadas e uma paleta de cores que cai para tons quentes (amarelos, laranjas e vermelhos). O filme tem uma trilha sonora báááárbara e bastante variada que vai de Bruce Springsteen a Rihanna, passando por muito rap e rock. No elenco, Sasha Lane arrebenta como Star - a personagem tem uma delicadeza que se esconde sob uma capa de ousadia e arrogância, uma inocência escondida sob condutas arrojadas e frases grosseiras, cheias de palavrões. Shia LaBeouf está bem como Jake - ainda que o ator tenha interpretado esse mesmo personagem umas quinhentas vezes antes, aparentemente ele não curte riscos. Riley Keough, por sua vez, está um pouco exagerada como a aprendiz de déspota Krystal, mas não chega a estragar a personagem. A obra dialoga intimamente com outro filme que trata da mesma temática: "Projeto Flórida" (2017). Aliás, o universo de "Projeto Flórida" encontra-se muitíssimo bem representado também neste filme - os quase miseráveis que vivem em hotéis baratos na beira das estradas, amontoados com seus filhos em minúsculos quartos destes hotéis. Também diria que há um diálogo entre Star e Halley e Moonee, as personagens daquele filme. Destaque para a cena inicial, para a cena dos tiozões com Star e para a cena da casa da mãe drogada - cenas mais fortes e que me angustiaram . O filme ganhou o Prêmio do Juri em Cannes em 2016. Eu gostei demais, fiquei super envolvida e adorei tanto o tema quanto a estética. Recomendo bastante.

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