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  • hikafigueiredo

“Anatomia de Uma Queda”, de Justine Triet, 2023

Filme do dia (137/2023) – “Anatomia de Uma Queda”, de Justine Triet, 2023 – Em uma casa afastada em Grenoble, na França, vivem a escritora Sandra Voyter (Sandra Hüller), seu marido, professor universitário, Samuel (Samuel Theis) e o filho do casal, Daniel (Milo Machado Graner), cego em decorrência de um acidente. Certo dia, Daniel sai com seu cão-guia e, ao retornar para casa, encontra seu pai, caído, inerte, na neve. Sandra, então, rapidamente, é acusada de assassinato e Daniel é a única testemunha da relação do casal.





Ganhador da Palma de Ouro em Cannes (2023), o filme centra sua atenção na vagarosa dissecação e completa exposição da vida de um casal diante de uma sociedade ávida por espetáculo e escândalo. A partir da morte de Samuel, abrem-se três hipóteses: a de um acidente, a de suicídio e a de homicídio, sendo, Sandra, a única suspeita. O caso vai acabar nos tribunais, onde, paulatinamente, a intimidade do casal vai sendo revelada, até ser totalmente devassada pela Justiça, na figura de um promotor convicto e teatral, e pela mídia, atrás de público para suas notícias. Confesso que a ideia da exposição da vida íntima de um casal me foi um pouco incômoda, pois, diferentemente dos maravilhosos “Cenas de um Casamento” (1973) e “História de um Casamento” (2019), onde a exposição é apenas para nós, espectadores fora do universo ficcional, nesta obra a exposição é para a sociedade daquela realidade, com ampla cobertura midiática – e, para mim, isso é extremamente invasivo e perturbador. Como com qualquer casal, aquele também guarda nichos escuros, verdades incômodas, acusações cruéis, erros atrozes – não existe relação sem percalços, cuja total compreensão só é alcançada por quem está diretamente envolvido e cuja exposição leva, inclusive, a interpretações errôneas e viciadas. A narrativa constrói essa exposição vagarosa e minuciosamente, com muito cuidado para criar uma imagem detalhada daquela relação. A obra também abre uma discussão acerca do que é e onde está a verdade, concluindo que, muitas vezes, ela é apenas um ponto de vista que se escolheu acreditar – e, aqui, a presença do filho do casal, Daniel, é um elemento fundamental para o desenvolvimento tanto da narrativa, quanto da “verdade” (entre aspas, porque esse conceito é colocado, inclusive, sob uma perspectiva filosófica). A narrativa é linear, com, acredito, uma ou duas cenas de flashback, as quais acompanham a discussão no tribunal e que não chegam a influenciar a percepção temporal. O ritmo é lento a moderado e bastante estável, sem a criação de um clímax muito marcado ou evidente. A atmosfera é de dúvida e apreensão – o filme não mostra, em momento algum, como se deram os fatos. Não existe “A” verdade absoluta, existem elementos probatórios que apontam para uma (ou mais) possibilidades e será o espectador que terá de optar por acreditar (ou não) nos argumentos de Sandra. O filme traz uma fotografia muito límpida e naturalista, sem trazer elementos extras para a narrativa (nada de jogos de luz ou cores puxadas para o quente ou frio para induzir a leitura ou as sensações; a fotografia é absolutamente imparcial). O desenho de produção concentra-se em dois ambientes – a casa e o tribunal: enquanto a casa tem meandros, andares, diferentes cômodos, dando certa ideia de quebra-cabeça, o tribunal se mostra uno e fixo. Confesso que a “leitura” da casa segue a da narrativa e será “construída” pela nossa percepção e convicção. Admito que aquela casa me causou uma péssima sensação por conta da deficiência de visão do personagem Daniel, pois cheia de escadas e vãos. Da trilha musical, só me restou na memória a música da cena de abertura, extremamente irritante por seu volume excessivo (inclusive na narrativa). Quanto às interpretações, Sandra Hüller está ótima como a escritora acusada de homicídio – ela não pesa a mão na interpretação de modo a mostrar caminhos.... ah, não, nada de simplificar para o espectador, ele tem de ter tanta dúvida quanto qualquer pessoa daquele universo! Mas quem me impressionou verdadeiramente foi o ator mirim Milo Machado Graner, maravilhoso como Daniel – o personagem sofre pela dúvida e busca subterfúgios para chegar a uma conclusão e o ator interpreta isso com perfeição. O filme é ótimo, muito bem construído, bem editado, tudo... mas não tive qualquer conexão com ele. Não sei se foi pelo cansaço, por já ter visto outro filme antes, mas em nenhum momento eu me senti envolvida emocionalmente pela obra. Ou talvez a expectativa fosse demasiada, não sei. Estou até mesmo pensando em rever logo a obra para tentar me conectar, ver se a impressão é diferente, mas, no momento, a sensação é de que o filme é excelente... mas insosso. Mas, até pelo buchicho, vou recomendar, já que acredito que eu estava apenas em um mau dia...

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