• hikafigueiredo

"Anatomia do Medo", de Akira Kurosawa, 1955

Filme do dia (226/2018) - "Anatomia do Medo", de Akira Kurosawa, 1955 - A família de Kiichi Nakajima (Toshiro Mifune) levam-no à Corte de Justiça na tentativa de interditá-lo. A medida extrema é tomada frente à decisão de Nakajima de vender todos os bens familiares e se mudar com a família, as amantes e os filhos das relações extraconjugais para a América do Sul como forma de fugir de um possível ataque nuclear ao Japão.





É completamente dispensável afirmar que esse filme é uma obra de arte - vamos combinar, todos "os Kurosawas" são. Mas é necessário dizer que esta obra alcança uma complexidade filosófica que até aos demais filmes do mestre extrapola. A história, a grosso modo, trata do medo e do que fazemos com esse temor. Discordo do nome da obra - ao invés de "Anatomia do Medo", deveria ser "Autópsia do Medo", pois o filme disseca a relação humana com seus temores mais profundos, mais viscerais. Em plena Guerra Fria, dez anos após os ataques de Hiroshima e Nagasaki, Kurosawa discorre sobre um tema que voltaria algumas tantas vezes às suas obras: o receio acerca de um ataque nuclear. A discussão, aqui, orbita não apenas o medo em si, mas, principalmente, que atitude tomamos frente àquilo que nos assusta. Há uma evidente crítica à postura passiva das pessoas ao perigo nuclear - o protagonista mostra-se indignado com a maneira como todos temem uma guerra nuclear mas abstraem a questão e tocam suas vidas como se ela não existisse. Por outro lado, não deixa de haver uma crítica à conduta proativa do personagem, pois sua única ação é tentar fugir, ao invés de lutar para que um ataque nuclear jamais venha a ocorrer. Também é interessante um ponto levantado pela história - os personagens alegam que, se a morte é o fim certo, por que se preocupar com qualquer coisa que levaria a ela? A essa questão, o protagonista responde que não é apenas a morte e a destruição que ele teme, mas, principalmente, a falta de escolha, ou seja, o fato de ser envolvido por um evento do qual ele não teria como evitar - e essa falta de opção seria tão assustadora quanto a morte em si. Todos estes pontos discutidos no filme são a ponta de um iceberg, pois a narrativa possibilita discussões ainda mais ricas e profundas acerca do tema medo. E esse não é, ainda, o único assunto exposto - discorre-se, também, sobre as relações familiares e de afeto, a responsabilidade de cada um pelos demais, a empatia, o cuidado com as gerações posteriores, a (in)sanidade da raça humana, e mais um sem fim de temas que somos instigados a pensar através da história. Sim, é um filme intrinsecamente filosófico, muito rico e bastante angustiante (que, por sinal, me fez lembrar de outro que resvala em questões similares e complementares - "Luz de Inverno" de Ingmar Bergman). Quanto à forma, achei interessante o uso do contraponto do mediador - apesar da narrativa focar nas questões de Nakajima, o mediador, de certa forma, acolhe e concorda com os medos do protagonista, reforçando seu posicionamento. A narrativa ocorre em tempo linear e cronológico, sendo, formalmente, bastante tradicional. Destaque para a fotografia P&B e para os posicionamentos de câmera sofisticados - não basta a obra ser rica em conteúdo, tem de ser, ainda, perfeita na forma!!!! Quanto às interpretações, temos um quase irreconhecível Toshiro Mifune, maquiado para parecer um idoso (ele tinha, na época, apenas 35 anos), a demonstrar todo o talento e versatilidade do ator - ele, que interpretou por tantas vezes personagens fortes, ousados, corajosos ou "malandros", aqui interpreta um homem atemorizado e fragilizado, apesar de seus rompantes de fúria). Destaque, ainda, para a participação do excepcional Takashi Shimura como o mediador (amo o ator desde que assisti a "Viver", também de Kurosawa, filme e ator maravilhosos). Vou ressaltar uma frase do filme, bastante pertinente: "Ele está louco? Ou estaríamos nós, que conseguimos ficar absolutamente impassíveis a um mundo insano?" - filme só amor, maravilhoso, necessário, obrigatório!!!!

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