• hikafigueiredo

"Antes da Chuva", de Milcho Manchevski, 1994

Filme do dia (152/2021) - "Antes da Chuva", de Milcho Manchevski, 1994 - Em uma Macedônia devastada por conflitos étnicos, três histórias interligadas - Kiril (Gregóire Colin), um jovem monge ortodoxo em voto de silêncio apaixona-se por Zamira (Labina Mitevska) uma refugiada albanesa; a editora de fotografia Anne (Katrin Cartlidge) se vê dividida entre o marido e o amante; e o fotógrafo Aleksander (Rade Serbedzija) abandona sua vida na Inglaterra e retorna para sua terra natal, a Macedônia.






"Fabuloso" é a melhor definição para este filme. "Antes de Chuva" é uma obra gigante, que trata de uma questão pertinente e sempre atual - os primórdios da deflagração de um conflito armado, aquele momento em que as condições para uma guerra civil estão postas e só aguardam um estopim para estourar em definitivo. Essa ideia reflete, inclusive, no nome do filme - "Antes da Chuva", a chuva, aqui, como uma metáfora para a guerra. O filme discorre sobre os conflitos étnicos milenares que ressurgiram com força total após a dissolução da antiga Iugoslávia, no caso, a disputa entre macedônios (cristãos ortodoxos) e a colônia albanesa (muçulmanos) em uma pequena vila perdida em meio aos Bálcãs. Justamente por retratar com crueza e intimidade a guerra, a obra tem um explícito tom pacifista, especialmente por mostrar a forma como o ódio pelo "outro" acaba voltando-se para seus próprios iguais, assim como o amor pode surgir e vicejar entre os diferentes. A narrativa é circular e ignora qualquer lógica temporal - aliás, o tempo é peça fundamental na narrativa, o que é comprovado pela frase “o tempo nunca morre. O círculo não se completa”, que aparece por duas vezes ao longo da história. O ritmo é moderado, mas, em momento algum, monótono. A atmosfera mescla urgência, melancolia e esperança. O filme tem uma fotografia belíssima, marcada por muitos planos abertos, enquadramentos originais e sofisticados e uma câmera que tem predileção pelo movimento, principalmente no primeiro terço. A beleza natural dos Bálcãs também é muito bem explorada e aproveitada por essa fotografia de espaços abertos. A trilha sonora faz uso de uma sonoridade bem particular, específica daquelas culturas - é uma música melancólica, bastante diferente aos ouvidos ocidentais, mas linda e comovente. Gostei bastante das interpretações de Rade Serbedzija como Aleksander, num personagem completamente "o bom filho à casa torna", cujo desespero por acreditar na paz e na esperança é tocante; de Labina Mitevska como Zamira, com olhos enormes que devoram o mundo e sua crença indestrutível no amor; e, acima de tudo, de Gregóire Colin como Kiril - o ator tem feições que parecem saídas de um mosaico bizantino, é impressionante, e seu personagem, um monge ortodoxo em voto de silêncio diz tudo e mais um pouco apenas com o olhar, de uma profundidade hipnótica. Esse filme é maravilhoso e, a cada vez que o revejo, gosto mais dele. A obra concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1995 e foi agraciado com o Leão de Ouro em Veneza em 1994. Recomendo demais.

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