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  • hikafigueiredo

“Ao Mestre, Com Carinho”, de James Clavell, 1967

Filme do dia (127/2023) – “Ao Mestre, Com Carinho”, de James Clavell, 1967 – Londres, final da década de 60. O engenheiro Mark Thackeray (Sidney Poitier), sem conseguir colocação profissional em sua área, resolve oferecer-se como professor em uma escola da periferia de Londres, com péssima reputação. No local, depara-se com uma classe de adolescentes rebeldes e tem de criar condições para se comunicar com eles.





Essa obra, baseada no livro autobiográfico de E.R. Braithwaite e famosa por ter, na sua trilha musical, o hit homônimo “To Sir, With Love”, entregou muitíssimo menos do que eu esperava. Na história, um engenheiro negro, nascido na Guiana, entra para o corpo docente de uma escola mal afamada na periferia de Londres. Logo o professor percebe que terá um longo caminho a percorrer para não apenas manter-se no cargo, mas, também, cumprir sua função de ensinar os alunos rebeldes. Não é necessária uma análise muito profunda para perceber uma série de problemas no filme. Não li o livro, mas desconfio muito de que sua versão para cinema foi esvaziada daquilo que ele tinha de mais importante. Primeira questão que se coloca: os alunos rebeldes são apresentados como simplesmente problemáticos. Não há o mínimo aprofundamento nas questões sócio-econômicas e/ou familiares que fizeram daqueles jovens pessoas tão revoltadas e socialmente disfuncionais. Isso é horrível, pois extirpa do filme qualquer espessura que porventura ele pudesse ter. Segundo ponto: a questão racial é tratada superficialmente, algo inaceitável para uma obra com esse perfil. A figura do professor – um homem negro e estrangeiro, que veio de uma família humilde e sem instrução e que se instruiu a duras penas – é insuficiente para abrir questionamentos acerca de uma situação de desigualdade racial evidente e, mais uma vez, o filme perde a oportunidade de instigar o pensamento e contribuir para alguma mudança na forma de pensar ou agir do espectador. Terceiro ponto: o filme é terrivelmente datado. A premissa de que as meninas deveriam agir como mulheres adultas porque em breve elas iriam se casar e virar esposas, mães e donas de casa é tão, mas tão limitante, tão machista, tão atrasado, tão repugnante, que me faltam palavras para expor minha indignação. Sim, eu sei que essa era a realidade da maioria das jovens mulheres na década de 60 e que, portanto, o filme expressa um determinado momento histórico, mas, para os dias de hoje e para mim, em particular, é uma ideia que chega a ser obscena, uma ode profunda ao patriarcado e à submissão feminina, algo que causa engulhos. Por fim, a transformação dos alunos revoltados em jovens empáticos e cooperantes foi por demais abrupta para convencer – o filme não foca no processo que, certamente, foi longo e cheio de entraves, e o resultado é uma mudança súbita que, para mim, causou estranheza. Nossa... então o filme é todo ruim? Não... ele é uma sessão da tarde da década de 1960, é levinho, é bobinho, é superficial, mas tem certa fofura na forma como o professor lida com os alunos e consegue envolvê-los com uma aura de carinho e preocupação sinceros. A obra é quase um filme adolescente da década de 80, mas com as características de duas décadas antes. A narrativa é linear, em ritmo moderado e constante. Senti falta de um clímax mais demarcado, a narrativa flui muito por igual. De positivo, a presença sempre marcante de Sidney Poitier, um ator de respeito, que aqui interpreta com doçura e sobriedade o protagonista Sr. Thackeray; também gostei das interpretações de Judy Geeson como a aluna popular Pamela Dare, de Christian Roberts como o aluno rebelde Denham e de Lulu como a aluna Barbara Pegg. Por fim, impossível não se enternecer com a música-tema “To Sir, With Love”, interpretada por Lulu – ela é agradável e doce, ainda que meio “chicletosa”. Destaque para as cenas do enterro e da festa de encerramento – cenas que deixam o coração quentinho e até fazem a gente esquecer as deficiências do filme. Então... a obra tem muuuuitos problemas, mas inegável que tem um amorzinho ali entranhado que faz bem à alma. Serve como filme de resgate para dias ruins.

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