• hikafigueiredo

"As Bicicletas de Belleville", de Sylvain Chomet, 2003

Filme do dia (106/2022) - "As Bicicletas de Belleville", de Sylvain Chomet, 2003 - Após seu neto Champion ser sequestrado enquanto competia na Tour de France, a Madame Souza encampará uma busca incansável para reavê-lo.





Diferente de todas as animações que vemos por aí, a obra traz charme e criatividade para o gênero. A história parte da infância de Champion, um menino tímido e triste que, após perder seus pais, vai morar com sua avó. A idosa não mede esforços para tentar animar o neto, mas nada parece estimulá-lo. Um dia, a avó descobre o interesse do menino por bicicletas e, num último esforço em resgatar o neto da tristeza, presenteia o garoto com uma bicicleta. Com alegria, Madame Souza vê despertar, em Champion, um diferente brilho em seu olhar. Anos se passam e Champion transforma-se em um atleta de ponta no ciclismo. Durante a competição Tour de France, no entanto, Champion e outros ciclistas são sequestrados, fazendo com que Madame Souza tenha de sair ao seu encalço. A animação, ainda que traga um humor ingênuo e sutil, traz críticas bem severas - ainda que igualmente discretas - à sociedade capitalista, que a tudo devora e mercantiliza. Tal crítica pode ser vista na cidade que avança, incansável, sobre a pequena e aconchegante casa da Madame Souza, até engoli-la por completo; no descarte das Trigêmeas de Belleville quando idosas, após serem um sucesso na juventude; na miséria em que vivem, tanto as trigêmeas, quanto a própria Madame Souza; e na cena da hamburgueria ("sem dinheiro, sem hamburgueres"). A obra aproveita a presença das três antigas cantoras de cabaré - as "Trigêmeas de Belleville" - para inserir muita musicalidade na história - várias são as cenas musicais, oportunidade em que as antigas artistas exibem seu talento. A narrativa é linear, num ritmo constante - para quem está acostumado às animações voltadas para o público infantil, mais especificamente as obras da Disney, Pixar, Dreamworks e Illumination, talvez "sinta" um pouco o ritmo mais vagaroso, mas vale a pena insistir na obra. A atmosfera traz certa melancolia, certo saudosismo, até mesmo pela presença constante de personagens idosas, já em seu ocaso. O traço da animação é bastante peculiar e caricatural - as características dos personagens são muito exageradas: narizes enormes, olhos gigantes, bocas imensas. Na primeira cena temos uma homenagem às animações antigas, das décadas de 20 e 30, revivendo o tipo de desenho comum àquela época, inclusive utilizando o P&B. No restante da animação, as cores caem para as tonalidades quentes, contribuindo para aquela atmosfera de saudosismo e aconchego já mencionada. A trilha musical de Benoît Charest tem de ser enfatizada - é deliciosa, e nos entrega o típico jazz das décadas de 20 e 30. A obra, excepcional, foi hors-concours no Festival de Cannes (2003) e concorreu ao Oscar (2004) de Melhor Longa de Animação e Melhor Música, com a canção "Belleville Rendez-Vous". Única crítica - na cena inicial, na apresentação do cabaré, fiquei muito incomodada com o trecho onde uma personagem - uma mulher negra - dança seminua, uma dança meio tribal, com uma saia feita de bananas: achei absurdamente racista e completamente dispensável, verdadeira pisada de bola do diretor. Tirando isso, o filme é perfeito. Recomendo.

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