• hikafigueiredo

"Assim Caminha a Humanidade", de George Stevens, 1956

Filme do dia (249/2021) - "Assim Caminha a Humanidade", de George Stevens, 1956 - O rico fazendeiro texano Jordan "Bick" Benedict Jr (Rock Hudson) viaja a Washington para adquirir um cavalo premiado, oportunidade em que conhece Leslie Lynnton (Elizabeth Taylor), a voluntariosa filha do proprietário do animal. Em dois dias, o casal se apaixona e, pouco depois, se casa, indo morar em Reata, a fazenda de "Bick", no Texas. No local, Leslie conhece Jett Rink (James Dean), o jovem e desaforado empregado da fazenda, o qual se encanta pela esposa do "patrão".





Seguindo a linha do romance histórico, nos moldes de "...E o Vento Levou" (1939), a obra é baseada no romance homônimo ("Giant", no original) de Edna Ferber e discorre sobre o conflito entre as culturas do norte dos EUA, mais progressista, e do sul do pais, mais especificamente do Texas, bem mais conservadora, focando, em especial, na questão da intolerância racial e cultural e da xenofobia. Na história, o conservador e preconceituoso "Bick" apaixona-se por Leslie, uma jovem do norte do país, e com ela se casa. Ocorre que Leslie é uma moça progressista, de opiniões fortes, e suficientemente teimosa para enfrentar o marido quanto a questões sociais e raciais. Rápido, Leslie percebe a forma intolerante como os texanos tratam seus empregados, todos de origem indígena, advindos do vizinho México. Despojada de preconceitos e com uma visão muito mais humanista, Leslie passa a trabalhar em prol dos "imigrantes", promovendo melhorias no vilarejo onde eles vivem, indo de encontro às ideias de "Bick". A maneira simples e acolhedora de Leslie de tratar os funcionários impressiona Jett, muito embora ele mesmo imbuído de intolerância racial, fazendo com que o empregado se apaixone pela "patroa". Evidentemente simpática à causa da tolerância racial, fica bastante clara a origem branca e elitista da autora da obra, uma vez que os personagens principais - todos brancos -, mesmo quando empáticos à questão, agem de forma extremamente condescendente com os personagens de origem indígena. Da mesma maneira, os personagens indígenas, além de ficarem em segundo plano, precisam ser "guiados" pelo personagem salvador branco (no caso, Leslie), jamais tomando as rédeas de sua luta nas mãos ou perdendo sua personalidade humilde, retraída e submissa. Em outras palavras, é uma obra sobre intolerância racial vista com o olhar da cultura do intolerante. Além disso, o ambiente geral onde se desenvolve a trama é nos ricos e sofisticados salões da elite, com todo o ranço que lhe é característico, e só quem não vive nessa bolha percebe a arrogância e empáfia daqueles acostumados historicamente com o poder e a riqueza. À parte as questões políticas e filosóficas, a obra é um cirúrgico retrato da sociedade texana nos anos 50 - intolerante, atrasada, machista, elitista e conservadora... exatamente como continua sendo até os dias atuais, ainda que, na trama, haja alguma evolução, em especial através do personagem "Jordy". Independente da semiótica da obra, o filme é cinema de primeiríssima qualidade, com um roteiro enxuto e magnificamente bem desenvolvido. A narrativa é linear, com uma grande elipse temporal - começa na juventude do casal e chega até sua maturidade -, em ritmo marcado. O filme tem toda a qualidade técnica do cinema mainstream hollywoodiano, desde a fotografia colorida, repleta de planos gerais magistrais e grandiosos das infinitas terras texanas, à direção de arte impecável, com destaque para os figurinos sofisticados da alta classe. No elenco, só estrelas de primeira grandeza: Rock Hudson está incrível como o insuportável "Bick" - o personagem é um poço de ignorância, machismo e preconceito durante 90% do filme, tentando alguma redenção nos últimos vinte minutos -, papel que o fez concorrer ao Oscar de Melhor Ator, merecidamente; Elizabeth Taylor interpreta sua caprichosa Leslie com suavidade - apesar de progressista e voluntariosa, a personagem é quase uma estrategista, lidando, com sabedoria, com as características negativas do marido (bem no estilo "bate e assopra"). James Dean é um portento como Jett Rink - o personagem, o mais complexo da tríade, alterna momentos de doçura e arrogância, transmite toda a mágoa de não ser o foco de afeto de sua amada Leslie, e vai do inferno ao céu (e volta aos inferno) ao longo da narrativa, e James Dean interpreta o personagem com rara voracidade (infelizmente, o ator viria a falecer antes mesmo do fim das filmagens, motivo pelo qual algumas cenas tiveram de ser adaptadas à sua ausência, com dublês de corpo ou voz, com a câmera muito distante, ou, ainda, suprimidas), concorrendo, como Hudson, ao Oscar de Melhor Ator pelo trabalho. No elenco, ainda, Carroll Baker como Luz, Sal Mineo como Angel e um jovem Dennis Hopper como Jordy, dentre outros. A obra recebeu nove indicações ao Oscar, sendo premiada na categoria de Melhor Diretor. O filme é fantástico, riquíssimo em leitura, perfeito como cinema e obrigatório para quem se aventura pela sétima arte. Recomendadíssimo!!!!

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