• hikafigueiredo

"Benedetta", de Paul Verhoeven, 2021

Filme do dia (119/2022) - "Benedetta", de Paul Verhoeven, 2021 - Itália, século XVI. Na pequena cidade de Pescia, a menina Benedetta Carlinni é levada por seus pais ao Convento das Teatinas para tornar-se freira. Anos depois, já adulta, Benedetta (Virginie Efira) alega ter visões e passa a dizer que é uma protegida de Jesus. Por ter terríveis reações às supostas visões, a Madre Superiora (Charlotte Rampling) coloca a noviça Bartholomea (Daphne Patakia) para acompanhar Benedetta em todos os momentos, o que fará com que as duas religiosas se aproximem e passem a ter um relacionamento escuso.






Estou um tanto quanto dividida quanto a essa obra. Ainda que veja grandes virtudes nela, tenho dúvidas quanto ao que o diretor quis transmitir - inclusive por, pessoalmente, ter sérias ressalvas quanto a Verhoeven. Mas, vou tentar expor minhas questões e deixar para que eventual leitor tire suas próprias conclusões. A história é livremente inspirada no livro "Atos Impuros", de Judith C. Brown, o qual relata, à partir de documentos históricos, a vida e história da freira Benedetta Carlinni, que viria a ser abadessa no convento no qual cresceu, no século XVI. Pelo o que eu pesquisei, o livro não é um romance, mas sim uma obra acadêmica que discute o misticismo da freira e, só bem adiante, trata da descoberta de seu relacionamento homossexual com a noviça Bartholomea. Pois bem. Com o livro em mãos, Verhoeven viu a possibilidade de fazer um filme daquele relato - que, cá entre nós, tem realmente um potencial raro para se fazer uma obra cinematográfica. Mas aí surge o problema: o que ressaltar? O misticismo contido na história? Os joguetes e conchavos existentes na Igreja Católica? O explosivo relacionamento lésbico entre as freiras? Tive a impressão que o diretor não soube resolver essa questão e colocou tudo no mesmo caldeirão e em doses iguais, o que, para mim, resultou em uma narrativa errática e pouco objetiva. Okay - por um lado, o diretor deixou a interpretação para o espectador, mas, por outro, não assumiu uma mínima interpretação própria, o que me parece confortável e preguiçoso. Assim, diante dos múltiplos e díspares elementos que o filme oferece, eu fiquei com uma séria impressão da obra ser meio um engodo, sabe??? Ela não me convenceu, muito embora não possa falar exatamente que eu não tenha gostado dela. Outra questão que se põe - e que, ao meu ver, quase sempre se põe quando se trata de Paul Verhoeven - é que o diretor trata as personagens e questões femininas de um ponto de vista extremamente masculino e machista. Em outras palavras, as personagens femininas agem e se comportam segundo as crenças de um homem - na minha opinião, com bem pouca sensibilidade e noção do feminino. Eu já achava isso desde "Instinto Selvagem" (1992), continuei achando isso em "Elle" (2016) e volto a ter esse sentimento incômodo em "Benedetta". Verhoeven tem o péssimo hábito de expor o corpo feminino mais do que o necessário - numa clara objetificação da mulher - e aqui não foi diferente. As cenas do relacionamento lésbico entre Benedetta e Bartholomea estão bem mais próximas de um filme pornô para homens do que algo existente no universo feminino. Então, eu realmente acho que a visão do diretor quanto às mulheres é profundamente fetichista e machista - e isso faz com que, no fundo, eu não goste dele quando ele tenta tratar de qualquer coisa daqui do nosso universo feminino, acho que ele erra feio e muito. Bom, agora que já desanquei o que eu achava que o filme merecia, vamos aos acertos. O filme, visualmente, é belíssimo - direção de arte de época incrível e fotografia fabulosa, em tons quentes e cores saturadas. A narrativa linear, em ritmo marcado, é bem construída, a despeito dos excessivos elementos articulados, como já disse anteriormente. As interpretações das atrizes Virginie Efira, como Benedetta, e Daphne Patakia, como Bartholomea, são boas, considerando as cores que o diretor quis imprimir (ou seja, acredito que tenham seguido à risca as orientações do diretor dentro daquela sua visão equivocada de um relacionamento lésbico entre as duas). Mas, coroando a obra, temos a maravilhosa Charlotte Rampling como Madre Superiora - a atriz é sempre, SEMPRE, excepcional e aqui ela está perfeita, inclusive nas contradições da personagem. Eu vi muito furor acerca do filme na época em que foi lançado - eu não vi motivo para tanto, nem por ser uma obra extraordinária (o que não é), nem por ser um lixo absoluto (o que também não é). Eu realmente não entendi, pois filme de freira lésbica por aí temos às centenas, tanto que existe até um subgênero exploitation nesse sentido (o "nunsploitation"). Estou aqui sem entender o que viram tanto na obra e, exatamente por isso, nem vou recomendar não, vejam por sua conta e risco.

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