• hikafigueiredo

"Bom Dia", Yasujiro Ozu, 1959

Filme do dia (30/2021) - "Bom Dia", Yasujiro Ozu, 1959 - Em uma pequena comunidade de casas idênticas em Tokyo, vivem diversas famílias. Os irmãos Isamu (Masahiko Shimazu) e Minoru (Kôji Shitara) estão encantados com a televisão de um vizinho e pressionam seus pais para que eles também comprem um aparelho.




Ozu era genial. Ele conseguia transformar histórias simples e cotidianas em verdadeiras obras de arte. Nessa filme, mais uma vez, ele retrata a poesia que existe no dia-a-dia, nas tarefas banais, nas ações comezinhas. Na obra, ele retrata um quarteirão qualquer de um bairro de Tokyo. As casinhas idênticas e muito próximas obrigam os vizinhos a se relacionarem com frequência e intimidade, uma vez que se cruzam pelos caminhos todos os dias. Os homens saem para trabalhar e se encontram no bar ali perto; as mulheres trançam de casa em casa, frequentando-se umas às outras; as crianças vão juntas para a escola e brincam entre si nas horas livres. Neste ambiente limitado, Ozu vai inserir elementos como as relações humanas e as mudanças advindas da modernização do país. O advento da televisão e da máquina de lavar roupas surge como linha condutora de modificações de relações e costumes. As crianças se encantam com as imagens da única televisão do quarteirão e exigem dos pais a aquisição de uma para a casa; as mulheres não escondem a inveja que sentem da vizinha que comprou, à prestação, uma máquina de lavar roupas. A poesia é extraída de cada cena, cada plano, por mais corriqueiro que seja o que retrata - essa é a arte de Ozu. A narrativa é linear e o ritmo, como de costume nas obras do diretor, lentíssimo (lentidão oriental, tá??? É lento MESMO). A atmosfera é uma confortável mistura de paz e saudade de algo que sequer vivi - é um filme acolhedor. Destaco duas cenas incríveis - a cena do vendedor de lápis, com uma comicidade sutil; e a cena em que uma fofoca se espalha entre as mulheres do bairro por conta da conduta dos irmãos Isamu e Minoru, que decidem fazer voto de silêncio até que seus pais concordem em comprar a tal televisão. O cinema de Ozu é muito característico: as câmeras são sempre fixas (não há movimento de câmera de nenhum tipo), em plano médio ou primeiro plano, na altura do enquadramento ou ligeiramente abaixo dele (jamais acima); a paleta de cores é suave, sem grandes coloridos ou cores muito saturadas; as ações são contidas, raramente há muito movimento em cena. Ozu também tinha preferência por alguns atores e atrizes: Chisu Ryu aparece em 9/10 filmes do diretor (e aqui não foi diferente, sendo o patriarca da família Hayashi, pai de Isamu e Minoru); Kuniko Miyake também era figura frequente, aqui no papel de mãe das crianças; Sugimura Haruko era outra figura carimbada nas obras do diretor (por qualquer motivo, era, com frequência, colocada em papeis pouco simpáticos, como a personagem mesquinha, egoísta ou intriguista), bem como Keiji Sada; destaco a interpretação de Masahiko Shimazu - ele era muito pequenininho, uma graça no papel de Isamu!!!! A obra é suave é poética e me agradou demais. Há, no entanto, que se estar acostumado ao ritmo lentíssimo, caso contrário o espectador vai se entediar com facilidade. Recomendo.

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