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  • hikafigueiredo

“Cada Um Vive Como Quer”, de Bob Rafelson, 1970

Filme do dia (57/2024) – “Cada Um Vive Como Quer”, de Bob Rafelson, 1970 – De origem aristocrática, Robert Dupea (Jack Nicholson) – ou Bobby, como ele prefere ser chamado – um ex-pianista clássico, abandonou sua vida confortável para trabalhar como operário em um campo de petróleo. Levando uma vida banal, ele se diverte com seu amigo Elton (Billy Green Bush) e namora a garçonete Rayette (Karen Black), com quem tem um relacionamento displicente e abusivo. Um dia, ao encontrar sua irmã Tita (Louis Smith), descobre que seu pai está gravemente enfermo e, sob pressão dela, resolve visitá-lo pela última vez, quando enfrentará seus demônios pessoais.




 

Neste icônico filme da chamada Nova Hollywood – movimento cinematográfico de vanguarda que teve lugar nos anos 1970, após o ocaso da era de ouro de Hollywood, quando os grandes estúdios ditavam as regras e traziam superproduções milionárias -, temos um olhar crítico para a sociedade estadunidense, não mais vista como perfeita e ideal, mas eivada de vícios e questões para serem resolvidas. Neste panorama, nos deparamos com Bobby, um ex-pianista de origem aristocrática que optou por abandonar sua família culta e de sucesso na música clássica, pelo trabalho braçal e temporário em campos de petróleo. Bobby leva uma vida descompromissada, incluindo seu relacionamento com a fútil e carente garçonete Rayette, a quem trata com indiferença. Seu cotidiano despreocupado sofre um revés ao ser informado por sua irmã de que o seu pai está gravemente doente. Contrariado, Bobby concorda em visitar o pai por uma última vez, oportunidade em que reviverá pesadas questões pessoais. O filme é incrível, muito embora possa se tornar bastante desconfortável, dependendo da sensibilidade do espectador. O foco da obra é o personagem Bobby, o qual representa toda a insatisfação de uma geração que não se encaixa mais nas regras do passado, mas, tampouco, encontrou seu lugar no presente. A impressão inicial que temos de Bobby é de um sujeito cínico, egoísta, que não respeita nada nem ninguém e que trata com desprezo a namorada que o adora. No entanto, no decorrer da narrativa, percebemos que Bobby é muito mais que isso. Ele traz conflitos internos profundos: Bobby sente-se fracassado diante das expectativas familiares frustradas, que esperavam que ele se tornasse um grande pianista clássico, algo que, muito provavelmente, jamais fora seu próprio desejo; ele se sente deslocado no meio de sua classe social culta e esnobe, como se não pertencesse àquele lugar, ao mesmo tempo em que se percebe como um estranho em meio às classes mais populares, pois ciente de seu conhecimento acerca de uma cultura elitizada e considerada mais “elevada”. Assim, Bobby não encontra seu lugar no mundo, gerando uma crise existencial profunda e dolorosa. É perceptível que Bobby está fugindo constantemente de si próprio, procurando algo que não está fora, mas dentro dele mesmo, tornando-o um retrato de sua geração setentista, inconformada, crítica e deslocada. O vazio interior de Bobby tem reflexos formais no filme: a linguagem cinematográfica é mais dura, os cortes das cenas são mais secos, a fotografia deixa de lado a estética e é bem naturalista. O desenho de produção tem dois momentos bem marcados: de um lado, a simplicidade rústica da vida de Bobby como operário; de outro, a estética rebuscada de sua família rica. A trilha musical traz trechos de obras clássicas para piano que se contrapõem às músicas country que Rayette escuta. Quase toda a música do filme é diegética, ou seja, existe dentro do universo ficcional, o que resulta em muitos momentos silenciosos, um silêncio incômodo e opressivo, que colabora com a sensação de crueza da obra. O elenco traz interpretações poderosas: Jack Nicholson como o atormentado Bobby, que desperta, por vezes raiva, por outras, piedade – o trabalho do ator é impecável, não imagino alguém melhor para o papel do conflituoso personagem; como a tola e inculta Rayette, Karen Black – sua interpretação é cheia de maneirismos, mas que estão muito bem colocados na personagem; como Catherine, Susan Anspach, também muito bem no papel. Algumas cenas merecem destaque: a discussão de Bobby com Elton, momento em que o protagonista expõe uma arrogância deslocada; as caronistas Palm e Terry, com seu discurso acerca da imundície, tão simbólico para uma geração; a defesa de Rayette por Bobby, que não aceita a humilhação feita à garçonete; e a cena final, que me gerou um vazio interior gigantesco. O filme, ótimo, foi indicado ao Oscar (1971) nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante (Karen Black) e Melhor Roteiro Original; foi indicado, ainda, ao Globo de Ouro (1971) nas categorias de Melhor Filme Dramático, Melhor Ator, Melhor Roteiro e Melhor Diretor, sendo, Karen Black, agraciada com o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante. O filme me surpreendeu positivamente, recomendo para quem gosta de filmes autorais e que não sigam tanto a linguagem hollywoodiana clássica. Segundo o Justwatch, o filme está para alugar na AppleTV, na Amazon e na Claro Vídeo.

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