• hikafigueiredo

"Cairo 678", de Mohamed Diab, 2010

Filme do dia (115/2019) - "Cairo 678", de Mohamed Diab, 2010 - Fayza (Bushra), Seba (Nelly Karim) e Nelly (Nahed El Sebai) são três mulheres egípcias, residentes no Cairo. De diferentes formas e em circunstâncias diversas, as três são vítimas de assédio sexual por parte de homens desconhecidos. Diante da tolerância da sociedade e da justiça a essa prática, as três mulheres buscarão, cada uma à sua maneira, uma forma de se protegerem de novos assédios.





Nesse filme-denúncia, baseado em um caso real ocorrido no Egito, é colocado em discussão não apenas a questão do assédio sexual, ocorrência bastante disseminada naquele país ( e eu diria no mundo), mas, ainda o machismo estrutural que cala e imobiliza as vítimas desta prática. Não se trata apenas de tolerar o assédio - ah, não !!! -, mas de impedir as vítimas dessa violência se defenderem, denunciarem e, até mesmo, se expressarem. Ali, como em tantos países e sociedades, o assédio macula, não a reputação do agressor, mas a da vítima e a de sua família, motivo pelo qual a grande maioria das mulheres se cala. Sem qualquer freio que impeça os agressores, os casos de assédio seguem-se, uns aos outros, afetando todas as mulheres. Uma coisa que me chamou a atenção no filme é que ele mirou no assédio, mas foi muito além - ele denuncia as atitudes masculinas que oprimem as mulheres e o comportamento auto-centrado, egoísta e "umbigólatra" de grande parte dos homens - como na cena em que o marido de uma mulher estuprada se diz "muito abalado" com o ocorrido e, por isso, a rejeita, ao invés de acolhê-la. Mulheres, preparem-se para se indignar e querer entrar no filme para dar na cara de uns tantos, porque as histórias - nenhuma delas exagerada - são de revoltar até a mais pacífica das almas. O assunto é importante, a denúncia é necessária e a conscientização, urgente. A obra, ainda, tem o mérito de expor a necessidade das mulheres se acolherem, umas às outras, num lindo movimento de sororidade. A forma do filme é interessante - inicialmente as três histórias de cruzam, cada qual em um tempo, para, em seguida, juntarem-se em uma só. O clima geral é de indignação e revolta, e causa algum mal-estar no público, ao menos no feminino. O ritmo é ágil e constante, não vai causar estranhamento no espectador acostumado com os filmes hollywoodianos. Gostei bastante das interpretações do trio central, todas as atrizes estão muito bem. É uma obra bastante feminina, que trata muito mais das mulheres do que nos homens, motivo pelo qual acho que terá maior eco entre o público feminino (mas espero que os homens também consigam apreciar e, quem sabe, compreender um pouco mais a realidade de nós, mulheres). Bom filme, vale muito pela temática apresentada. PS - Observem, no quarto de Nelly, o poster de "O Silêncio dos Inocentes" - uma mulher com a boca tampada por uma mariposa -, a representar as mulheres sem voz, caladas pelo patriarcado. Instigante.

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