• hikafigueiredo

"Campo Grande", de Sandra Kogut, 2015

Filme do dia (101/2017) - "Campo Grande", de Sandra Kogut, 2015 - Regina (Carla Ribas) mora em um apartamento de alto padrão em Ipanema. Um dia, duas crianças são deixadas na porta de seu edifício com um bilhete com seu nome e endereço. Regina tenta se livrar do problema de todas as formas, mas a insistência de sua filha Lila e de Ygor, o menino abandonado, acaba convencendo-a a ajudar as crianças a encontrar sua mãe.





O filme é um tutorial de como extrair, à fórceps, alguma empatia da "gente de bem" por alguém que não si próprios. Concordo que algumas soluções encontradas pelo filme são esdrúxulas - na boa, se aparecessem duas crianças perdidas ou abandonadas na porta da minha casa, a primeira medida - óbvia - que eu tomaria seria avisar a polícia, né? Mas, independente das soluções oferecidas pelo filme, a completa insensibilidade da personagem Regina pelas crianças - incapaz de acolher, de falar uma palavra de consolo, oferecer um carinho qualquer - é revoltante e incomoda. Lógico que, ao longo da história, Regina acaba desenvolvendo, na marra, alguma empatia pelas crianças, mas, pelamor, deveria ser algo mais natural. O filme, ainda, mostra o choque da madame da zona sul ao "descobrir" os rincões perdidos e paupérrimos do entorno do Rio de Janeiro - quem nunca se preocupou em sair da bolha, acaba se acostumando no seu belo mundo de fantasia. O engraçado é que existe uma crítica bem sutil na obra, porque a "madame" nem é tão bem de vida assim, ela nada mais é que uma classe média remediada, que vive às custas do marido e a separação do casal evidencia que Regina não é muito mais que uma pobretona com ares de grandeza. Apesar de alguns absurdos do filme (como não avisar a polícia assim que as crianças apareceram), gostei da obra por escancarar essa relação esquisita da classe média com a realidade além de seu quintal. Carla Ribas está otimamente insuportável como a insensível Regina e as crianças Ygor e Rayane são umas gracinhas e estão ótimos em seus papéis. Gostei bastante.

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