• hikafigueiredo

"Caravaggio", de Derek Jarman, 1986

Filme do dia (235/2020) - "Caravaggio", de Derek Jarman, 1986 - Itália, 1610. Em seu leito de morte, o pintor renascentista Michelangelo da Caravaggio (Nigel Terry) relembra passagens de sua controversa vida, em especial o triângulo amoroso que viveu com Ranuccio (Sean Bean) e Lena (Tilda Swinton).





Numa ambientação impressionantemente pictórica, o filme retrata parte da biografia do renomado pintor Caravaggio, inclusive com certa interpretação da natureza do artista à partir de sua pintura. Caravaggio retratava, com frequência, jovens rapazes, muitos dos quais andróginos, quase sempre com forte apelo sexual. Procurei na biografia do pintor alguma referência quanto à sua sexualidade, mas não encontrei nada. Acredito que, com base nas sensuais pinturas dos jovens rapazes, o diretor concluiu pela bissexualidade do artista - não saberia dizer se foi uma viagem de Jarman ou se foi fundamentada em mais do que as obras de Caravaggio. De qualquer forma, um dos focos da narrativa é justamente seu relacionamento com Ranuccio e, depois, com Lena, formando um triângulo amoroso. O comportamento violento do artista - característica do pintor que é ressaltada em qualquer biografia sua - e seu envolvimento recorrente em brigas e disputas também são mostrados no filme, bem como seu relacionamento com seus patronos, em especial o Cardeal del Monte. A narrativa segue em um quase caótico tempo não-linear - Jarman praticamente brinca com os diversos trechos da vida do pintor, pinçando aqui e ali passagens mais significativas. O ritmo é moderado, pode desagradar quem está acostumado ao frenesi dos filmes hollywoodianos. Mas, se tem algo que é simplesmente impressionante no filme é a fotografia, aliada a uma direção de arte magnífica. O filme reproduz, com detalhes minuciosos, inúmeras obras de Caravaggio - os objetos, os personagens retratados, as cores, a luz, tudo é incrivelmente mimetizado. Além disso, mesmo quando não reproduz uma pintura, o filme carrega, nas suas imagens, as mesmas luz e tonalidades das obras do artista. Assim, como nas pinturas de Caravaggio, temos uma luz bem marcada, com forte contraste claro-escuro, em tons quentes e com um uso quase constante de uma paleta em tons de vermelho e marrom. Pessoal, o filme é lindo de se ver, por vezes desliguei do texto para observar as imagens!!!! Aliás, um texto em off, bastante poético, não obstante enigmático por vezes, acompanha todas as memórias do artista moribundo. Ao longo da obra, há a inserção de elementos cênicos contemporâneos - uma motocicleta, uma calculadora, uma máquina de escrever, roupas atuais, uso de palavras recentes ou menção a assuntos desconhecidos no século XVII -, que eu interpretei como uma sugestão da atemporaneidade das obras do artista (mas, admito, pode ser só uma leitura maluca minha). Gostei bastante do trabalho de NIgel Terry como Caravaggio, e fiquei impressionada como ele ficou parecido com as imagens dos autorretratos do pintor. Sean Bean como Ranuccio foi apenas okay, enquanto Tilda Swinton já mostrava a que vinha como Lena (eu sou louca por essa atriz, a acho maravilhosa em todos os aspectos!!!!). Completando o elenco, Michael Gough como Cardeal del Monte e Spencer Leigh como Jerusaleme. O filme, de baixíssimo orçamento e realizado em pouquíssimos dias, teve um resultado magnífico, ele é uma verdadeira pintura em movimento. Gostei bastante e recomendo.

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