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“Casa de Chá do Luar de Agosto”, de Daniel Mann, 1956

  • hikafigueiredo
  • 15 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Filme do dia (128/2025) – “Casa de Chá do Luar de Agosto”, de Daniel Mann, 1956 – Ilha de Okinawa, Japão, 1946. Após o término da Segunda Guerra, os EUA expandem sua influência geopolítica para o extremo oriente. No intuito de influenciar cultural e politicamente a Ilha de Okinawa, os EUA enviam o Capitão Fisby (Glenn Ford) para a pequena aldeia de Tobiki, sob a orientação do Coronel Purdy III (Paul Ford). Ajudado pelo intérprete nativo Sakini (Marlon Brando), Fisby se dirige à vila em questão, onde conhecerá a população local e a gueixa Flor de Lótus (Machiko  Kyo).


 

A adaptação cinematográfica do romance homônimo de Vern J. Sneider é uma deliciosa sátira às práticas geopolíticas dos EUA no Japão do pós-guerra. Muito embora, na história, os estadunidenses – na figura do Capitão Fisby – consigam implantar o modo de produção capitalista na pequena Vila de Tobiki, culturalmente a ação é um fiasco, pois, ao contrário dos estadunidenses influenciarem os nativos, são estes que, simplesmente, “engolem” os estrangeiros. Assim, logo Fisby estará vestindo um roupão militar como quimono, usando sandálias de madeira, consumindo conhaque de batata-doce e caçando “gafanhotos da sorte” como os locais. O mais divertido do filme, no entanto, é a imagem que ele passa dos estadunidenses – um povo sem muita noção das coisas, desajeitado, ingênuo e ignorante. O Coronel Purdy III é apresentado como um egocêntrico autoritário, preocupado com detalhes ínfimos e sem nenhum “jogo de cintura” para lidar com os nativos e seus próprios comandados; já Fisby e seu amigo Capitão McLean são mostrados como dois ingênuos muito facilmente “enrolados” pela população local, que os fazem de trouxa a todo momento. Em síntese, o filme escracha com a imagem dos estadunidenses e acaba com aquela ilusão dos próprios retratados de que eles são a última Coca-Cola do deserto do mundo (e que só eles e quem tem síndrome de vira-lata que acreditam). Mas, como nem tudo é perfeito, temos na obra um dos mais vexaminosos casos de “yellowface” da história do cinema, só perdendo para a interpretação de Mickey Rooney como Sr. Yunioshi em “Bonequinha de Luxo” (1961). Marlon Brando como o nativo Sakini é uma verdadeira ofensa a qualquer oriental, com sua atuação estereotipada e xenofóbica – eu sei que, na época, casos de “yellowface” e “blackface” eram comuns e normalizados, mas eu acho vital destacar quão equivocada e ofensiva era essa prática, até mesmo para que JAMAIS se repita. Quem deve interpretar orientais? SOMENTE orientais!!!! (e pensar que poderíamos ter, no lugar de Marlon Brando, um ator perfeito como Toshiro Mifune... que dor...). Por outro lado, a presença graciosa de Machiko Kyo no papel da gueixa Flor de Lótus ajuda a apaziguar um pouco nossos corações do século XXI – a atriz, uma das mais incríveis do cinema japonês (que, para mim, só perde para Setsuko Hara e Isuzu Yamada), traz delicadeza, mas também paixão, à personagem Flor de Lótus, apesar de existirem críticas à personagem por certa estereotipação da mulher japonesa. Glenn Ford, por sua vez, mostra toda a sua veia cômica como Capitão Fisby – o personagem alia boas intenções com um jeito desajeitado e inocente que rapidamente conquista o espectador. O mesmo podemos dizer do trabalho de Eddie Albert como Capitão McLean – a sintonia de Glenn Ford e Eddie Albert é inegável! Destaque para a cena de Flor de Lótus tentando vestir o “quimono” em Fisby e para a dança da gueixa na inauguração da casa de chá. Admito que o filme traz questões problemáticas relacionadas a visões equivocadas do povo japonês, mas confesso que eu adoro a ridicularização dos estadunidenses, o que me leva a me divertir muito com a obra. Eu adoro o filme e o recomendo para qualquer um que tem ranço desse povo dos EUA (meu caso). Óbvio que o filme não existe em streaming, devendo ser procurado em mídia física ou torrent.

 
 
 

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