• hikafigueiredo

"Corpus Christi", de Jan Komasa, 2019

Filme do dia (115/2021) - "Corpus Christi", de Jan Komasa, 2019 - Daniel (Bartosz Bielenia) é um jovem detido em um reformatório por um crime de lesão seguida de morte. Muito religioso, ele gostaria de ser padre, mas seu histórico de crimes o impede de ser aceito em qualquer seminário. Quando ele é liberado do reformatório, ele se dirige a uma pequena cidade, onde teria vaga de trabalho garantido em uma madeireira. No entanto, por conta de uma brincadeira, ele é confundido com um clérigo e acaba recebendo o cargo de pároco na única igreja da cidade.





A sinopse dá a falsa ideia de que o filme tem um elemento cômico - nada mais equivocado que isso. Na realidade, a obra é um drama sensível que versa sobre empatia, responsabilidade, respeito pelo próximo, escolhas, perdão, hipocrisia e, acima de tudo, sobre fazer aquilo que você acredita que é certo. A visão de Daniel acerca da religião e de seu papel perante a comunidade mostra-se muito mais profunda, verdadeira e fiel aos preceitos católicos do que a do pároco oficial, afastado por uma doença, e das beatas que frequentam a igreja e, com o passar do tempo, ele vai tomar atitudes que surpreenderão de diversas formas os fiéis do local. Daniel, também, não terá medo de colocar o dedo em certas feridas, apontando caminhos mais humanos e escolhas mais solidárias para seu rebanho. A obra, ainda, discorre sobre oportunidades, redenção e sobre "não desistir de ninguém", dando uma dimensão muito mais empática e agregadora ao trabalho desenvolvido pelo jovem (e falso) padre. O personagem Daniel é um exemplo de como é possível fazer o certo por caminhos tortuosos - ele nem de longe é perfeito, mas, em seu interior, há compaixão, coerência e compreensão, o que o torna um personagem encantador por sua profunda humanidade. A narrativa é linear, com um ritmo marcado. Visualmente, é um filme bastante sóbrio, com uma paleta de cores predominantemente escura e neutra. A trilha sonora é marcada por rock pesado. O personagem Daniel (ou Padre Tomasz, como se colocou na cidade) é interpretado por Bartosz Bielenia, um verdadeiro achado. Muitíssimo expressivo, com um olhar que carrega pecados e dores, mas também muita fé e compaixão, Bielenia realiza um trabalho irretocável. No elenco, ainda, Eliza Rycembel como Marta, Tomasz Zietek como Pinczer e Aleksandra Konieczna como a sacristã, mãe de Marta. Cabe destacar que Jan Komasa é um diretor excepcional, que escolhe muito bem seus roteiros, valendo muito a pena visitar as outras obras dele - "Suicide Room" (2011) e "Rede de Ódio" (2020), só alertando que o primeiro tem gatilho fortíssimo para depressão e suicídio (logo, use o bom senso). Adorei o filme e recomendo demais! PS - O filme concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano passado e tinha volume para ganhar se entre seus concorrentes não tivesse um "foguete" chamado "Parasita" (2019).

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