“Crescei e Multiplicai-vos”, de Jack Clayton, 1964
- hikafigueiredo
- 18 de mai. de 2025
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Filme do dia (37/2025) – “Crescei e Multiplicai-vos”, de Jack Clayton, 1964 – Após três casamentos e sete filhos, Jo (Anne Bancroft) casa-se com Jake Armitage (Peter Finch), um promissor roteirista de cinema. Apesar do casal aparentar uma ardente paixão, rapidamente Jake começa a dar mostras de infidelidade, levando Jo a ter um comportamento obcecado e depressivo.

Três anos após concluir o excepcional “Os Inocentes” (1961), o diretor Jack Clayton abraça uma obra completamente alinhada à Nouvelle Vague britânica, que trata, sem véus de qualquer espécie, das questões domésticas e de relacionamento relativas a um casamento entre uma dona de casa e um roteirista de cinema. A obra, baseada no romance “The Pumpkin Eater” (título original do filme), de Penelope Mortimer, expõe as agruras de um casamento de forma crua e sem rodeios como ninguém havia feito até então. Na história, Jo é uma mãe de sete filhos, que já passou por três casamentos e que se envolve com Jake, um amigo do terceiro marido, o qual é abandonado para que ela contraia seu quarto casamento. Ocorre que, apesar de apaixonado e disposto a assumir os muitos filhos da esposa, Jake não está assim tão inclinado a abandonar sua vida de “don juan” e deixar de lado suas muitas amantes. Jo, desconfiada da infidelidade do marido, torna-se por ele obcecada e entra em profunda depressão, agravada pela insípida vida que leva, cuidando da casa e dos muitos filhos. A narrativa nos conduz a uma espiral de problemas, mentiras e neuroses, trazendo um panorama do casamento sem qualquer romantismo ou idealização. Um parêntese: muito embora, para a época, tanto o assunto como a postura de Jo fossem muito “modernas” – afinal, problematizava-se as “santas” instituições do casamento e da maternidade e a personagem ousava questionar seu marido numa época em que as esposas somente se calavam e aceitavam docilmente qualquer coisa que lhes fosse oferecido -, para os dias de hoje, o desfecho daquele relacionamento evidentemente tóxico nos parece por demais permissivo e conformista (hmmmm... um quase spoiler aqui). Por outro lado, a completa desmistificação da maternidade mantém-se bastante atual – Jo lida com dificuldade com o fato de ter tantos filhos, ela não esconde o tédio e o fardo que é ser mãe, chegando ao ponto de renunciar à parte das crianças. Na narrativa também percebemos que existe forte desapego dela com os filhos (na cena em que os meninos mais velhos voltam do internato, há evidente desconforto de Jo com a presença deles; não há qualquer sombra de afeto ou alegria por vê-los depois de anos, todos parecem incomodados pela situação). A realidade é que a vida de Jo gira em torno de Jake, ele é sua única motivação e interesse, de forma que ela é completamente anulada pela presença do marido - sim, tudo bem neurótico e tóxico! A narrativa é não linear, entremeando diferentes momentos da vida do casal, sem uma lógica muito clara, mas vinculados, principalmente, às recordações de Jo. O ritmo inicial é bastante lento – talvez demais, o que me gerou sono na primeira meia hora -, mas crescente, ganhando força e agilidade à medida que nos aproximamos da conclusão. A atmosfera é de desânimo, dúvida e desconfiança, uma vez que a narrativa é conduzida pela neurotizada Jo. O destaque do filme fica por conta, principalmente, do elenco. Ainda que Peter Finch esteja muito bem como Jake – o personagem carrega um cinismo pesado, o qual alterna com um afeto genuíno pela esposa – é, Anne Bancroft quem se destaca, com uma interpretação densa da personagem Jo – a protagonista revela muitas camadas, é complexa, não uma simples vítima da situação, e Anne Bancroft consegue oferecer muitas nuances à personagem. A atriz, por sua atuação, foi indicada ao Oscar (1965), além de ter sido agraciada com o Globo de Ouro (1965) e o BAFTA (1965). Anne Brancroft ainda foi escolhida como Melhor Atriz no Festival de Cannes (1964). A obra tece uma representação bastante rica (e trágica) do casamento e dialoga profundamente com outros filmes com este tema, principalmente “Cenas de um Casamento” (1973) e “História de um Casamento” (2019). Eu achei uma boa obra, mas que demora para engatar e se mostra um pouco datada. Caso alguém queira conferir, segundo o Justwatch, está para alugar no Apple TV. PS – o filme traz, numa pequena cena, a atriz Maggie Smith, bem novinha, como a personagem Philpot.