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“Crimes do Futuro”, de David Cronenberg, 2022

Filme do dia (64/2024) – “Crimes do Futuro”, de David Cronenberg, 2022 – Num futuro distópico, o ambiente contaminado e tomado por todo tipo de coisas sintéticas leva o corpo humano a sofrer adaptações e mutações. Dentre as modificações, o ser humano para de sentir dores físicas, o que abre inúmeras possibilidades para a exploração deste corpo físico. A cirurgia é banalizada, assim como os processos de modificação corporal extrema. Neste panorama, o artista performático Saul Tenser (Viggo Mortensen), junto com sua companheira Caprice (Léa Seydoux), usa suas mutações corporais em apresentações artísticas. A fama de Saul, no entanto, atrairá um grupo revolucionário que acredita ter a chave para a nova evolução humana.





Nesta ficção científica neo noir cyberpunk com toques de body horror temos uma forte crítica social que abarca uma variedade bem extensa de temas, que vão da poluição ambiental à espetacularização da vida. Na realidade imaginada por Cronenberg, as alterações ambientais repercutem diretamente nos seres humanos, causando mutações que tendem a modificar a essência da humanidade. Ao não sentirem mais dor física, as pessoas se voltam para suas dores emocionais, mas, o que poderia ser um aprofundamento filosófico da questão, torna-se um esvaziamento pouco sutil de significação da existência. A expressão “beleza interior” perde seu sentido figurado e passa a ser considerada enquanto literalidade, o que abre espaço para a conspurcação do corpo físico. Vi, aqui, uma crítica a tudo aquilo que se faz hoje em nome da estética – retirar um par de costelas para afinar a cintura ou injetar toxina botulínica para impedir as marcas de expressão não estariam assim tão longe do que é retratado na história, como a retirada de “órgãos” novos e surgentes (que a própria narrativa explicita tratar-se de tumores que ameaçariam as vidas daqueles corpos) ou a modificação extrema da forma. Também vi uma crítica mordaz à espetacularização da existência – nada mais teria significado em si, tudo só ganharia sentido enquanto espetáculo, enquanto audiência, estando, até a intimidade, fadada à exposição pública, uma crítica evidente e direta aos influencers e tiktokers atuais. A vida, na narrativa, torna-se superficial, sem questionamentos, sem profundidade, sem motivações, esvaziada política e filosoficamente e mesmo o questionamento que resiste parece imediatista, trazendo respostas óbvias ou preguiçosas (caso do grupo “revolucionário”, que se limita a aceitar aquela existência fustigada pelos elementos sintéticos e a acelerar processos de desumanização – em outras palavras, o grupo não tem nada de revolucionário, tendo em vista estar absolutamente alinhado ao sistema que chegou àquela realidade). Temos, em dado momento, uma breve discussão acerca de consentimento, mas rapidamente a personagem que levanta a questão sucumbe ao apelo da audiência e afasta a polêmica. Enfim, difícil esgotar os temas explorados pela obra justamente por ela incitar várias indagações – como tudo do diretor, é um filme provocativo e instigante, que lida com muitas questões atuais. A narrativa é linear, em um ritmo pausado, adequado aos temas e suspense que se estabelecem. A atmosfera é incômoda, perturbadora e angustiante – meu sentimento foi de que o filme trata de uma exasperação de algo que já existe, já está aí hoje, guardadas as proporções. O filme exige algum “estômago” pelas cenas de vísceras expostas e procedimentos cirúrgicos. – não que seja tudo muito realista, pois nem é, mas acredito que algumas pessoas podem se incomodar com esse princípio de body horror. Formalmente, o filme traz elementos do gênero noir, como a fotografia mais escura e contrastada, os ambientes sombrios, as cores sóbrias e pouco saturadas. O filme traz alguns designs inusitados, como a cama e a cadeira cibernéticas, que contrastam violentamente com o abandono e convencionalismo formal do órgão público e burocrático retratado na trama. Com relação ao elenco, temos o incrível Viggo Mortensen como o personagem Saul, num trabalho bastante instigante; Léa Seydoux interpreta Caprice e confesso que eu quase não a reconheci; Kristen Stewart interpreta Timlin, numa escolha perfeita para o papel. Eu gostei do filme, muito embora tenha achado que o desfecho deixou a desejar (não sei bem o que eu esperava, mas certamente não foi o que foi entregue). A obra provocou, questionou e me colocou a pensar sobre ela, o que para mim é o objetivo maior do cinema, mas lembrem-se que é um filme do Cronenberg, logo, tem muitas esquisitices. Segundo o Justwatch, o filme está em streaming pelo MUBI e, para alugar, no AppleTV.

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