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  • hikafigueiredo

"Dalva", de Emmanuelle Nicot, 2022

Filme do dia (139/2022) - "Dalva", de Emmanuelle Nicot, 2022 - Dalva (Zelda Samson ) é uma menina de 12 anos que é retirada do pai que a mantinha em um relacionamento incestuoso. Abrigada em um centro para crianças e adolescentes vítimas de violência, Dalva terá de reaprender a ser, novamente, uma criança.





Pesado e doloroso, o longa-metragem de estreia de Emmanuelle Nicot traz a triste história de Dalva, uma menina de doze anos que é mantida, pelo pai, em um relacionamento sexualizado e incestuoso. Arrancada, contra a sua vontade, daquela relação doentia, Dalva é levada a um abrigo para crianças e jovens vítimas de violência e ali recomeçará sua vida. O filme discorre sobre os efeitos da exposição das vítimas aos relacionamentos violentos e abusivos e da dificuldade de se reconstruir emocionalmente essas vítimas. Dalva - como tantas outras crianças e jovens vindos de lares disfuncionais - vive em franca negação, em uma espécie de "Síndrome de Estocolmo". Muito embora submetida à sexualização precoce, a incesto e estupros, a menina possui um profundo vínculo afetivo com seu abusador - no caso, seu próprio pai. Na narrativa, Dalva acredita ter sido abandonada pela mãe graças a uma forte alienação parental promovida pelo seu pai. O pesadelo em que a garota vive por anos é amenizado pelo desenvolvimento destes fortes laços de afeto - Dalva nega ser vítima de seu doentio genitor e crê, com sinceridade, que é uma escolha sua manter aquele relacionamento perturbador e perverso. Em dado momento ela questiona o porquê de um pai e sua filha não poderem ter uma relação pautada no "amor", revelando uma profunda confusão não apenas do que significam afeto e sexo, mas, também, dos papeis desempenhados por um pai e uma filha. Com sua visão equivocada do amor e do afeto, com toda a carência advinda da ausência da mãe e vivenciando mecanismos internos de defesa, Dalva acredita que aquilo que ela vive com seu pai é normal e absolutamente aceitável - até mesmo porque é tudo o que ela conhece da vida, posto estar, desde os seis anos, praticamente isolada da sociedade por seu genitor. Para Dalva, o desconhecido parece muito mais assustador do que uma realidade que lhe é familiar e que, de certa forma, aprendeu a conviver ao ponto de parecer aconchegante. Conduzida ao abrigo, Dalva precisará rever conceitos, aprender novos tipos de relações de afeto (que não passem pela sexualização), reencontrar sua identidade, refazer sua história (uma vez que sua mãe jamais a abandonou) e deixar para trás todo o pesadelo simulado de amor. Evidente que o processo é doloroso e difícil, quase caótico, muito por conta da resistência de Dalva. A narrativa é linear, em um ritmo um pouco lento, mas bastante adequado à trama. A atmosfera é pesada, angustiante, mas acena com esperanças e saídas satisfatórias. Vale destacar que a diretora optou por apenas sugerir as violências sofridas pela protagonista - não há qualquer cena de violência sexual contra a personagem Dalva e quem fica muito impactado com este tipo de cena, pode ir assistir a esse filme sem preocupações. A construção (ou seria reconstrução?) da personagem Dalva é cuidadosa, milimétrica e extremamente convincente - a protagonista está tão esfacelada emocionalmente que ela tem séria dificuldade em entender qualquer aproximação, ela simplesmente não sabe como agir em diferentes situações e como se posicionar diante de diferentes pessoas que se colocam à sua frente. O filme traz uma câmera nervosa, que se fixa por longos minutos, em planos fechados, ao rosto da personagem Dalva, tentando extrair toda a profundidade de seus sentimentos e dúvidas. A fotografia é pouco saturada e sem brilho, buscando evitar qualquer romantização daquela triste situação. Gostei bastante da transformação física e emocional da protagonista que passa de uma menina travestida em mulher para uma garota de sua idade real. O elenco traz, como protagonista, a jovem Zelda Samson em sua primeira experiência como atriz - ela já seria ótima se fosse atriz previamente, mas é assustador o fato de que ela jamais esteve em cena antes!!! A menina é um fenômeno, muito boa, ela transparece toda a confusão de seus sentimentos, a dificuldade em entender as próprias dores, o que é o que em sua vida!!! Alexis Manenti interpreta o funcionário do abrigo destacado para acompanhá-la e orientá-la e consegue fazer seu personagem imbuído de afeto e autoridade. Sandrine Blancke interpreta a mãe de Dalva, fazendo um ótimo trabalho e servindo de "escada" para pelo menos duas cenas impressionantes da jovem atriz Zelda Samson - o reencontro de Dalva com sua mãe e a cena final, ambas de arrancar o coração do peito com uma colher de plástico. Fanta Guirassy interpreta a abrigada Samia, que será a primeira referência de colega e amiga de Dalva, muito bem no papel. Jean-Louis Coulloc'h interpreta o famigerado pai, um personagem difícil, mas que aparece poucas vezes em cena (mas o suficiente para eu detestá-lo... o personagem, não o ator... rs). Achei o filme tocante, perturbador, doloroso - e bom, realmente bom. Dos filmes assistidos até o momento na Mostra Internacional, foi o que eu mais gostei e que mais mexeu comigo. Recomendo fortemente e digo mais - ficar de olho tanto da diretora Emmanuelle Nicot, quanto na jovem (agora) atriz Zelda Samson!!!!

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