• hikafigueiredo

"De Longe te Observo", de Lorenzo Vigas, 2015

Filme do dia (132/2019) - "De Longe te Observo", de Lorenzo Vigas, 2015 - Armando (Alfredo Castro) é um homem de meia idade que busca rapazes pelas ruas de Caracas para observá-los seminus, oferecendo altas somas de dinheiro a eles em contrapartida. Certo dia, Armando atrai para sua casa o jovem Elder (Luis Silva), um rapaz de dezessete anos, membro de uma gangue local, que o agride e o assalta. Apesar da agressão, Armando volta a procurar Elder, estabelecendo uma estranha e complexa relação com o rapaz.





A obra trata, na sua essência, de dois assuntos: o olhar e o poder. O primeiro se concentra naquilo que está ao alcance do olhar, mas distante de outras formas de interação. De uma maneira quase metalinguística - uma vez que o cinema dá vazão a este mesmo fascínio pelo olhar -, o filme "brinca" com o voyerismo do personagem Armando e, por extensão, do espectador. Não se trata de possuir o objeto de desejo - a "posse" se dá através do ato de olhar; seguindo a mesma lógica, Armando possui e rejeita seus desafetos somente pela observação. Em outras palavras, tudo se estabelece através do olhar do personagem e aqui percebemos um diálogo entre este filme e as obras "Janela Indiscreta", "A Tortura do Medo" e "Dublê de Corpo", todos discorrendo sobre essa mesma temática. O segundo assunto de que trata o filme é o poder. Há um intrincado jogo de forças entre Armando e Elder, uma luta pelo poder sobre o outro ao longo da narrativa. E é interessante ver aonde essa batalha vai dar, pois o poder real não reside apenas em "ter" aquilo que interessa, mas, sim, "dispor" daquilo - o maior poder é ter, inclusive, a possibilidade de abrir mão do objeto ao seu bel-prazer (bastante filosófico isso). Não posso dar spoilers, mas chega a ser sórdida a maneira como se estabelece e, posteriormente, se aprofunda, esse jogo de poder, até o desfecho verdadeiramente cruel e chocante (bom, pelo menor para mim rs). A narrativa ocorre em tempo cronológico, sem sobressaltos. O ritmo é pausado, mas não lento. O forte da obra é o roteiro muito bem feito, que brinca coma ambiguidade da relação entre Armando e Elder. Achei a fotografia meio "lavada", sem contraste e com pouca saturação. Achei especialmente boa a interpretação de Alfredo Castro como o ambíguo Armando - prepare-se que ao longo da narrativa nosso sentimento por ele dará verdadeiros "loopings". O filme é muito bom, tanto que foi agraciado com o Leão de Ouro em Veneza em 2015. Vale bem à pena.

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